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Vitor Bossa (aka VBLKS) e a arte de tatuar (e não desistir)

“Desistir” definitivamente não é uma palavra que consta no vocabulário de Vitor Bossa. Guaratinguetaense, o atual estudante de Artes Visuais da Unesp não passou justamente na prova de desenho da primeira vez em que prestou o vestibular – na ocasião, para design gráfico. Mas isso não foi motivo para abaixar a cabeça – foi, inclusive, um combustível para ir em busca de seu sonho. Estudo, estudo, estudo, estudo e mais um pouquinho de estudo depois, Bossa é, hoje, aos 20 anos, tatuador em um dos mais conceituados estúdios de São Paulo. Sabendo bem onde quer chegar, ele abriu seu sketchbook e seu acervo de tattoos pra gente e nos contou um pouco sobre o seu trabalho! Confira!

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Quando surgiu seu interesse por arte? Você desenha bem desde sempre?
Meu interesse pela arte veio desde pequeno, sempre gostei muito de desenhar e de música, porém, a música quem tomou conta da infância e adolescência, época em que costumava compor e tocar em bandas.
O desenho e a vontade de ser tatuador surgiram e passaram a ser levadas mais a sério por volta dos 16,17 anos, quando a cobrança do colégio e da família por ter que seguir algum caminho na vida começou a apertar.

Com 17 anos, decidi prestar Design Gráfico e ser tatuador. Comecei a me dedicar mais ao desenho e seu estudo; um fato curioso é que na primeira vez que prestei o vestibular, não passei justamente na prova de desenho, mas acontece que nem sempre desenhei bem. Hoje, olho para trás e vejo que era bem despreparado para seguir nessa área naquela época.

Porém, o ocorrido não me deixou chateado e só me motivou mais para correr atrás do meu sonho. Nessa época, vim para São Paulo, onde fiz cursinho e cursos livres de desenho. Passei a me dedicar integralmente aos estudos. Na Quanta Academia de Artes, devido a diversos contatos e boas pessoas, passei a ficar viciado em desenho!

Comecei a desenhar todos os dias, sempre me esforçando cada vez mais e pesquisando mais também, pois, na minha cabeça, era um ano que eu tinha para me preparar e não iria dar pra não passar na faculdade!

De qualquer maneira, desenho é um processo. Não é da noite para o dia que ficamos bons. É preciso disposição, horas sentado com a bunda na cadeira todos os dias – só assim você evoluirá, mas, não só para o desenho, para a vida. Tudo a que nos dedicamos e esforçamos, é uma questão de tempo até os frutos chegarem.

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Pra desenhar nos seus sketchbooks, quais são os materiais que você mais gosta de usar, quais canetas?
Meus sketchbooks costumam ser bem simples, não uso muita coisa além de uma lapiseira 0,9 ou 2.0 que são meus xodós, para fazer os esboços, e canetas nanquim 0,3; 0,6 e 0,8. As lapiseiras que uso são da Koh-I-Noor e as canetas venho utilizando as Ecco Pigment da Faber-Castell. Inclusive, não existe nada colorido no meu estojo e a conta é mais ou menos um caderno em 3 semanas ou no máximo um mês!

Meus esboços costumam ser sempre bem sujos, rabisco bastante até chegar numa forma final, como se a mão nunca parasse de se mexer, tentando extrair todos os pensamentos possíveis para o papel. Depois dessa etapa bem suja, defino melhor o desenho ainda no grafite e costumo finalizá-los a lápis primeiro, sempre delimitando luzes e sombras antes de usar as canetas.

Uma vez decidido o desenho, costumo deixar a ideia amadurecer um pouco, então sempre rola uma pausa para um café e uma esticada no corpo. Agora é a vez das canetas: costumo utilizar no máximo 2 canetas por trabalho, uma para as linhas de fora mais grossa e outra mais fina para os pontos ou hachuras, mas é sempre o desenho que manda, se é algo que pede uma bitola maior, eu faço com a 0.8 e os detalhes com a 0.6, ou uso a 0.6 e a 0.3 em coisas mais delicadas, por exemplo.

Sempre tento fazer tudo de uma maneira bem solta e gestual, não costumo me preocupar no papel se algo sair como eu não queria, aliás, um bom artista é aquele que sabe encaixar utilizar seus erros a seu favor. Feitas as linhas de fora, venho preenchendo com linhas e pontos e é aí que a mágica acontece, dando personalidade e vida ao desenho!

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De onde vêm suas inspirações e referências pros desenhos?
Minhas inspirações costumam ser bem diversas, e às vezes até com coisas distantes das que eu desenho. Costumo pesquisar bem a fundo tudo que eu faço e a partir disso, tiro muitas inspirações e referências de gravuras em madeira e metal, linguagem tradicional, que eu desenvolvo um projeto junto à tatuagem, onde eu traduzo xilogravuras ou gravuras em metal que faço para a tatuagem, sempre questionando a tradução e o que funciona em cada linguagem.

Pesquiso muito sobre livros de botânica, veterinária, medicina, gravura japonesa, artistas da história da arte como Durer, Brancusi, Escher, Malievitch, além de tatuadores. Para citar nomes: Gregório Marangoni, Frederico Rabelo, Ien Levin e Alex Tabuns. Ah sim, além de filmes, séries, livros e caminhadas pela cidade… sempre faço tudo escutando um bom som, porque sem combustível ninguém funciona!

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Quando você começou a tatuar? Qual foi a parte mais difícil desse começo?
Comecei a tatuar em julho de 2014 devido a uma greve na faculdade (Haha)! Sempre tive vontade, porém foi aí que vi a oportunidade de não ficar parado e investir no sonho; comprei os materiais e tatuei muita pele de porco!

Fiquei por 8 meses tatuando escondido em casa. Em São Paulo, eu moro com a minha avó, então sempre que ela saía para trabalhar, eu montava a maca, fazia toda a assepsia do ambiente e tatuava, depois era faxina para ela não perceber que eu tinha tatuado!

Com o tempo, comecei a tatuar mais pessoas que não conhecia, portanto ficou mais complicado de levá-las em casa e isso me fez ir atrás da oportunidade de crescer. Corri atrás de um estúdio para trabalhar e entre muitos, comecei a tatuar no Organic Art Tattoo, onde tive a oportunidade de conhecer ótimos profissionais que me ajudaram muito. Logo após 2 meses lá, tive a grande felicidade de ser convidado para tatuar no Gelly’s Tattoo Sênior, um dos maiores estúdios de SP, ao lado de profissionais que sempre admirei e foram referência para mim!

Acredito que a parte mais difícil do começo é a confiança, e a confiança de vários conjuntos. Muitas vezes o tatuado não confia muito no tatuador, o que é natural, pois é algo que ficará pra sempre na pele, por isso os amigos são importantíssimos! Tem também a confiança do tatuador nele mesmo, pois existe uma pressão em entregar um bom trabalho para a pessoa, então autoconfiança é bem necessária!

Além disso tudo, rola a confiança de outros tatuadores em você, em te ajudar; felizmente eu tive a ajuda de ótimos profissionais que tiveram dispostos a me incentivar e a me aconselhar, fazendo com que eu crescesse mais a cada dia!

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Qual foi a primeira tatuagem que você fez (em outra pessoa)?
A primeira tatuagem que fiz em alguém foi em mim mesmo, o que é muito normal entre os tatuadores, porém em outra pessoa foi na minha maior incentivadora, Mayara [namorada de Vitor]. Foram duas flores de cerejeira, perto do tornozelo, o legal é que ainda foram coloridas, coisa que eu não faço mais hoje em dia. Além de coloridas, pra uma tatuagem média, na época eu demorei 4 horas e me senti cansadíssimo depois que eu a fiz, foi importante ter ido com calma para entregar o melhor resultado que eu podia oferecer na época!

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Quais são os desafios da profissão de tatuador? Como é o mercado para tatuadores no Brasil?
Essa pergunta é bem complicada de ser respondida, como eu disse, tenho pouquíssimo tempo de tatuador e dar uma resposta bem elaborada é difícil, portanto, falarei do meu ponto de vista com a experiência que tenho até o dia de hoje!

Atualmente, a profissão tatuador mudou muito, existe muito mais espaço para trabalhos autorais, diferentemente de 15, 20 anos atrás. Além disso, a tatuagem passou a ser mais respeitada e inclusive elevada à categoria de arte; infelizmente ainda existe um certo preconceito, porém isso cada vez é menor.

Uma coisa sobre a qual refleti muito desde que comecei, é que para ser tatuador não basta saber desenhar bem e segurar a máquina, a profissão vai muito além disso, pois ela exige que você saiba importantes conceitos de assepsia, planejamento financeiro, ter noção do seus gastos e do seu tempo, saber se relacionar com clientes e extrair as melhores possibilidades deles, avaliar o que funciona e o que não funciona na pele, ter noção como seu trabalho ficará envelhecido, saber divulgar seu trabalho de maneira séria, fazer um bom atendimento ao público… enfim, é muita coisa além de saber a técnica só.

Atualmente, no Brasil, acredito que o mercado de tatuadores esteja em expansão com muitos tatuadores bons e trabalhos autorais. Hoje em dia é muito fácil você poder ser tatuador, é fácil de achar equipamento e vídeos na internet por exemplo, vejo esse lado por ser fruto dessa geração, porém, é imprescindível a consciência e a responsabilidade quando você estará marcando uma pessoa para sempre! Então, se você será um bom ou mau tatuador, como eu já havia dito antes, vai depender de quanto for o esforço, sua vontade de correr atrás das coisas e sua seriedade como profissional.

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Quais são os próximos passos pra você na sua carreira?
Os próximos passos para a carreira estão traçados e já estou correndo atrás para que aconteçam ao mesmo tempo de maneira natural e dentro dos prazos. Além de conciliar a faculdade de Artes Visuais com o estúdio de tatuagem, elaborando projetos entre linguagens tradicionais (ex.: pintura, gravura, cerâmica) com a tatuagem e vice-versa, desenvolvo também trabalhos dentro das artes plásticas como quadros e esculturas, além disso, há planos para excursões nos EUA em julho de 2016 e Europa em dezembro de 2016 para tatuar.

Tudo isso vem somado ao processo, ao processo de se entregar à aquilo que gostamos e se dedicar cada vez mais, aprender e saber ouvir quem já está lá na frente, filtrar todas informações para que sejamos melhor naquilo que fazemos, evoluindo todos os dias tanto como profissionais quanto como seres humanos!

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