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Stefan Sagmeister
Áustria

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[Zupi] Você nasceu na Áustria, possui um estúdio em Nova York e já trabalhou em lugares como Hong Kong e Sri Lanka. Como esses diferentes lugares influenciaram seu trabalho?

Os lugares influenciam muito o processo de criação. Os países são diferentes em muitos aspectos: as pessoas para se trabalhar em conjunto, os tipos de colaboração… Mas o que mais conta é a mentalidade. Eu cresci na Áustria, e o tempo que passei lá é decisivo na vida de qualquer pessoa – o cérebro só cresce até os 28 anos, e desses 28, morei 25 lá. Minha mente recebe muita influência do meu país natal.

[Zupi] Você decidiu que queria ser designer aos 14 anos. Houve algum episódio específico nessa idade que te levou a ter essa certeza?

Como muitos designers da minha época, escolhi a área por causa das capas de álbuns. Amo música. Costumava reparar nas capas dos discos e acabei me fascinando por isso. Lembro-me de uma em particular, da banda King Crimson. O álbum chamava In the Court of the Crimson King, e a capa mostrava um rosto gritando. Fiquei encantado pela imagem, desenhei uma versão gigante dela a lápis e olhei fixo para meu desenho por horas. Naquele momento, o design me pareceu a escolha certa.

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capa para CD da banda Talking Heads

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pôster para anúncio do albúm de Lou Reed

[Zupi] Você é formado pela Universidade de Artes Aplicadas de Viena. Na sua opinião, qual é a importância de uma formação acadêmica, na área do design?

Não acho que faça muita diferença ter ou não um diploma, no campo profissional. Mas ajuda muito, porque você passa por experiências fantásticas e faz contato com outros estudantes e pessoas que também amam arte. Eu achei excelente, aprendi muito com meus colegas, provavelmente mais do que com meus professores. Na escola não é todo mundo que se interessa pelo mundo das artes, e eu gostei muito de estudar em um lugar onde todos apreciavam arte como eu.

[Zupi] Seu trabalho é muito conceitual e possui vários pontos de contato com as artes plásticas. Você acha que o design também pode ser uma forma de arte?

A principal diferença entre as artes e o design é que o design deve ter uma função. A cadeira que você está sentada, por exemplo, tem entre suas funções ser confortável. Mas uma cadeira também pode ser representativa, pode transmitir algum aspecto do momento em que se vive – há muitas funções, ela não precisa ser necessariamente confortável. Já a arte não precisa ter uma função; ela pode apenas existir. Se eu me aprofundar nesta questão, minha resposta irá por água abaixo – algumas peças de design são mais artísticas que verdadeiras peças de arte. Há muitos artistas por aí que fazem obras de design sem saber; eu acredito que alguns trabalhos de design de Andy Warhol sejam melhores que sua arte – como a capa do álbum Sticky Fingers, que ele criou para os Rolling Stones. Em geral, como observador, eu não levo em consideração se foi feito por um designer ou por um artista: o que importa é se é bom ou não.

[Zupi] Você possui um pequeno estúdio em Nova York com poucos funcionários. Por que prefere mantê-lo assim?

Eu trabalhei para grandes, médios e pequenos estúdios, e descobri que as empresas menores são as que criam os melhores trabalhos. Ainda que as grandes empresas possam realizar bons trabalhos, normalmente eles são feitos por um grupo muito pequeno de pessoas. Quando há muita gente envolvida o resultado não é bom. Estúdios pequenos são mais eficientes, o cliente normalmente recebe um projeto mais bem feito. Geralmente, quando uma empresa de design consegue mais clientes, ela contrata mais pessoas. Preferimos não seguir por esse caminho. Assim, temos a chance de escolher nossos clientes – o que é bom para eles e para o público em geral, porque apenas serão feitos trabalhos para quem gostamos. Isso significa que não iremos mentir, e ficaremos mais entusiasmados para trabalhar. E o dia a dia também melhora. É ótimo chegar em casa após um dia de trabalho e saber que me esforcei por algo em que realmente acredito.

[Zupi] Seus trabalhos são normalmente orgânicos, feitos manualmente. Como você concilia essa característica com o uso da tecnologia?

Nos últimos 15 anos, tudo que desenvolvemos tem tecnologia envolvida. Algum tipo de transformação digital foi feita. A ideia de um design criado pelas máquinas nasceu com a BauHaus, e por volta de 1920, era muito interessante e fascinante, já que haviam sido eliminados os erros humanos. Mas estamos vendo isso há 90 anos, e ficou extremamente chato e entediante. Para uma pessoal normal, andando por aí, na rua, toda essa produção feita pelas máquinas é fria e não tem impacto. A maioria pensa que tudo é feito mecanicamente: se esquecem que há pessoas por trás, talvez porque a aparência do produto final se pareça com algo feito por uma máquina. Por isso agluns projetos obtém mais sucesso através de uma abordagem mais humana e pessoal.

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Cartaz para o AIGA New Orleans

[Zupi] Um de seus trabalhos mais conhecidos é o cartaz de uma palestra sua, que mostra seu corpo inteiro cortado com informações. Por que escolheu essa abordagem?

Na época, o termo “processo” estava em alta na área do design; era sobre o que todos falavam. Então quis utilizar esse conceito, tão discutido, de uma maneira eficiente: o pôster mostra como foi feito de maneira instantânea. Os anúncios da época costumavam ser coloridos, e eu sentia que o meu, fugindo desse padrão, expressava algumas sensações minhas sobre o design: dor e ansiedade. E, assim como todo cartaz, deveria conter uma imagem forte.

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Cartaz para o AIGA Detroit

[Zupi] Existe algum artista brasileiro que você admire?

Há ótimos trabalhos de brasileiros na 29ª Bienal de São Paulo. No terceiro andar, havia um lindo labirinto feito com chapas de madeira, construído de maneira bem complexa (artista: Henrique Oliveira). Não sei se me inspiraria em algo do que vi, mas adorei conhecê-los.

[Zupi] Quais são os seus planos para o futuro?

Gosto de me envolver com trabalhos em que eu saiba o que fazer, mas que também preservem algum mistério. Meu plano futuro é produzir um documentário sobre felicidade – sobre a minha felicidade, para ser mais específico. Escolhi um documentário porque posso inserir elementos do design nele – mas é um campo em que não tenho nenhuma experiência e pouco conhecimento. Talvez meu documentário saia terrível. Veremos no que vai dar.

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Intervenção tipográfica nas ruas de Amsterdã. “Obsessões tornam minha vida pior e meu trabalho melhor”: frase foi feita com moedas de 1 centavo de euro, totalizando 2500 moedas.

+ Informações:
Tumblr: Stefan Sagmeister

 

Gostaríamos de agradecer à revista abcDesign, responsável por trazer Sagmeister ao Brasil e por tornar essa entrevista possível.

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