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Richard Calhabeu
Nova Jersey, Estados Unidos

Para contatar o artista, art.as.art@uol.com.br

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[Zupi] Quando você descobriu que tinha talento para a arte?

Eu não descobri, sempre tive. Minha mãe fala que desde que eu peguei em um papel, comecei a desenhar personagens e figuras. E quando não tinha o papel e a caneta, brincava com a comida: a bala se transformava em carrinhos e embora eu tivesse muitos brinquedos de verdade, eu preferia ficar brincando com doces, pipoca, a minha viagem era sempre por aí. Talvez porque as embalagens de comida sempre tenham sido mais atraentes, coloridas, os doces para as crianças são uma coisa fascinante.

[Zupi] Conte um pouco sobre sua infância nos Estados Unidos.

Meus pais são brasileiros e eu sou de Nova Jersey. E lá era horrível. Eu nunca me senti muito americano, sempre fui mais brasileiro e acho fascinante a cultura. Eu vim para o Brasil com 5 anos de idade, fiquei até os 12 anos, quando fui expulso do país porque minha documentação não estava legal. Tive que voltar para um país do qual eu já fazia uma imagem bem negativa. Meu avô era comunista e eu fui criado por ele, então tinha uma visão assustadora dos EUA, como se lá morassem todas as fraquezas do ser humano. E moram! Mas já que tive que voltar, tive outra visão dos EUA, aquela visão de deslumbre, fantasia, Disney e Nova Iorque, onde eu fiz o final do colegial, bacharelado e mestrado.

[Zupi] Como foi o período de estudos por lá?

Horrível. Tudo era horrível. Porque eu comecei o colegial aqui e era muito puxado, tem aquela coisa de preparação para o vestibular, mas as pessoas são muito unidas, conectadas. Você briga, chora, ri… existe uma coisa latina nas relações. Logo, quando eu fui para os EUA, eu era visto como latino e não como americano. E não que exista preconceito, mas lá há uma separação: você estrangeiro, vá com o seu grupo. Ou senão acaba virando americano para estar com americanos.

[Zupi] Esse choque influenciou seu trabalho?

Foi a melhor coisa que me aconteceu. Pois no Brasil, eu tinha aquela produção que todo adolescente tem, de ficar pintando e desenhando de uma maneira terapêutica, um devaneio no fundo da sala de aula. Quando cheguei aos EUA e não conseguia me relacionar com as pessoas, o americano era meio boboca, comecei a parar com devaneios e passei a focar no que eu fazia. E a escola percebeu isso e acabou me explorando dentro da área. O apoio à arte lá é gigantesco. Fui para a faculdade e já tinha um portfólio absurdo para um aluno de colegial.

Não teve escola que negou: Parsons, Escolas de Artes Visuais de Nova Iorque, Alfred University, todas as escolas de peso me aceitaram mesmo atrasado em minha inscrição. Minha vida estava decolando por lá, tinha bolsa de estudos, mas uma amiga inscreveu meus trabalhos aqui no Itaú Cultural e ele foi selecionado para mais duas exposições. Depois consegui um emprego na Bienal, até que optei por ficar no Brasil.

[Zupi] Em que momento seu trabalho transitou do experimental para o comercial?

Quando cai em um museu, em um espaço cultural, seu trabalho se torna um item de consumo. Eu trabalho com clientes que tem espaços (bar, restaurante) e querem saber minha proposta para o lugar. É inevitável isso. Outro dia eu estava treinando minha cachorra no parque e estavam as pessoas todas emplumadas entrando na Bienal, só carro importado e eu pensei “Gente! A arte não é isso…”. É mais. Não é essa coisa elitista que temos hoje em dia, isso é ridículo.


[Zupi] Você acha que qualquer pessoa pode ser artista?

Acho que pode. Porque hoje em dia a arte não é sobre alguns princípios, como era no período Impressionista ou no período Renascentista. A arte hoje lida com criação. Se você cria, você é artista. Outro dia mesmo eu tinha um trabalho no orkut, coisa mais estúpida! Era uma borboleta gigante, de 2 X 2 metros mas feita só de lixo. Coloquei online sem pretensão alguma e uma mulher me diz que o trabalho era super batido e que ela estava cansada de ver aquilo, que era extremamente decorativo. Eu pensei “quem põe lixo na parede da sala? mas tudo bem…” Na hora eu comecei a rir, mas depois eu pensei que talvez fosse mesmo, talvez ela tivesse razão. É uma coisa boba mas eu nunca mais vou olhar para essa borboleta da mesma forma.

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[Zupi] Você disse que foi apoiado pela crítica americana. Em que ponto ela foi diferente da crítica brasileira?

Ah é tudo farinha do mesmo saco! Os caras são todos podres, abafam alguma produção que está aí. A gente vê agora os Gêmeos fazendo sucesso, mas há quanto tempo eles trabalham? Eles estão aí desde que mundo é mundo, grafitando em paredão de tudo que é lugar e ninguém reconheceu. De repente eles ganharam cartaz. Daí a grafitagem virou arte. Se eu bem me lembro, em umas 3 Bienais atrás tinha uma área toda para grafitagem e não deu um terço da mídia que os Gêmeos têm hoje. Que palhaçada!

[Zupi] Você acredita que tem espaço suficiente para as artes plásticas no Brasil?

Espaço tem. Espaço para todos, não. E essa é a diferença de um país de primeiro mundo para o nosso. No Brasil tem espaço para aqueles que a crítica de arte resolve ceder o olhar.

[Zupi] Você acredita que a arte brasileira possua uma identidade própria?

Tem. A gente tem duas identidades: uma que é feita por nós e que ainda não é verdadeira, e outra que é feita pelos de fora que nos vêem coloridos, felizes e morando em árvores. Isso é o que os outros querem. Você vê Beatriz Milhazes, lida com mandalas, energia latina, rendas mexicanas, e isso é o que os outros querem. Ela é maravilhosa e isso é aceito pelos outros. Você também tem o brasileiro querendo ser o outro, que faz quadrados em preto e branco e se chama Neo Concreto. Aquela coisa entediante…

[Zupi] Não seria uma tendência global que todos absorvam a cultura de todos?

Não. Acho que a tendência global é querer ser o outro.

[Zupi] E você quer ser brasileiro ou americano?

Depende, eu posso ser os dois. No Brasil, eu me sinto brasileiro e me identifico com o Brasil. E lá nos EUA eu… me sinto mais brasileiro ainda! Quer saber? Eu não sou americano coisa nenhuma!

[Zupi] Quais as técnicas que você mais utiliza?

É tela normal, tinha acrílica e algumas vezes faço colagem sobre a imagem.

[Zupi] Como surgem as ideias para os personagens?

Às vezes nós temos posturas estranhas quando estamos em público, e eu tento captar essas coisas que me chamam atenção. Essas pessoas existem mas só eu sei. Estava uma vez na piscina da academia quando entrou um rapaz muito branco de pele, um cabelo preto e um olho claro que assustava, que não era normal. Era uma pessoa estranha, mas bonita. Eu pensei que ele daria um ótimo quadro.

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[Zupi] Existe algum elemento que você aplique mais aos trabalhos?

Eu gosto de fazer minha cor. Detesto cor direto do pote. Artista que usa isso é muito fraquinho. A cor que eu crio está sempre relacionada a uma estranheza que eu tento passar no trabalho, às vezes está ligada ao meu emocional.

[Zupi] Você pretende passar alguma coisa por meio das suas obras?

Eu já me preocupei em ter algo que questionasse, mas percebi que a arte saía forçada, então hoje eu tento fazer algo natural. É impossível ser único, mas são esses vômitos que perduram em arte. Eu não acho que meu trabalho é tão atrevido quanto poderia ser. Porque muitas vezes quando seu trabalho é atrevido, fica rotulado ou acaba caindo dentro de um grupo. O trabalho acaba tendo uma vida própria e você tem que responder por ele. É como pôr filho no mundo e depois ele cresce e mata a família inteira e você, como pai, tem que responder pelo que ele fez. Como meus pais vão ser responsáveis por mim, agora, hoje? Meus pais são muito piada com meu trabalho. Fazem aquele papel que eu odeio fazer de aprovação. Eles mostram para todo mundo para saber se o filho deles está dentro dos confinamentos do que socialmente é aceitável.

[Zupi] Seu trabalho está dentro destes confinamentos?

Dentro desta zona que está aí fora, eu estou mais do que dentro! Eu estava vindo para cá, quando fui xingado por um cara na rua, sendo que eu estava parado na faixa. Você vai me dizer que meu trabalho não está adequado para ESTA sociedade? Que medo!

[Zupi] Você usa figuras andrógenas e tem fascínio pelo que é estranho. Você arriscaria um motivo para isso?

Eu tenho mesmo. Porque eu acho que o estranho não ocupa um espaço como a maioria das pessoas. Ele existe mas é distante porque não é compatível. Eu me sinto estranho. O andrógeno acho que é porque essa mistura de homem e mulher existe, nós estamos caminhando para uma coisa única. Os homens estão mais sensíveis e as mulheres têm uma postura muito mais incisiva, então as coisas não estão mais em pólos opostos. Elas estão chegando em um ponto comum. Outro dia eu estava retocando uma foto minha e as pessoas disseram que eu estava com cara de mulher. E daí? Não pode? A gente é tão cheio de regras! As pessoas não querem se comprometer, ficam em cima do muro…

[Zupi] Algum comentário final?

Meu maior medo é depois de uma semana rever o que fiz e falei, e perceber que não é nada disso, que eu mudei de ideia. E eu sou craque nessas coisas.

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