Quem dorme na rua passa o dia de pijama

Poluição, transito e caos: os moradores da cidade de São Paulo convivem diariamente com esses problemas. Com tanta coisa em nossa cabeça, esquecemos de enxergar  – ou não queremos enxergar – o que está diante de nossos olhos. O fotógrafo Thiago Lima resolveu clicar aqueles que passam despercebidos: os moradores de rua. Muitas pessoas não têm um lar ou saíram de casa por algum motivo. Com o projeto “Quem dorme na rua passa o dia de pijama”, Thiago não quis apenas mostrar a invisibilidade social desses moradores, mas também suas histórias de vida. A Zupi fez uma entrevista com o fotógrafo para saber um pouco mais sobre suas fotos. Confira!

Como você teve a ideia do projeto?

Após fotografar um coletivo de teatro “Nós na corda bamba” em 2011, uma amiga que faz parte do grupo me deu a ideia de escrever um projeto para o Programa VAI, programa para a valorização de iniciativas culturais. No início eu ainda não sabia sobre o que escrever para o editorial, até que percebi que a linguagem do meu trabalho trazia consigo um olhar mais urbano e sentimental ao mesmo tempo. Foi então que decidi escrever um projeto sobre moradores de rua.

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O nome do projeto “Quem dorme na rua passa o dia de pijama” chama a atenção, pois não é um título comum. Quem escuta, automaticamente começa a refletir sobre a temática já abordada no título. Como você enxerga a vida dos moradores de rua em São Paulo?

O título é uma referencia a um graffiti que vi no centro, cenário onde muitos moradores de rua vivem. Como qualquer outro morador de uma metrópole, estamos sempre ocupados, com pressa e preocupados com nossos compromissos e problemas. Isso faz com que as pessoas observem menos o mundo a sua volta. O morador de rua sempre está associado a marginalidade, violencias, sujeira e outros inúmeros adjetivos. A forma que eu os via na maioria das vezes era negativa, ignorante e até preconceituosa. Essa visão foi mudando aos poucos a cada morador que eu conhecia, abrindo a minha mente cada vez mais.

Quando você se permite conhecê-los sem medo ou pré-julgamentos, percebe que cada um deles é diferente do outro, cada um tem seu caráter, independente dos demais e suas historias são únicas. Quando vejo um morador fico imaginando qual é a sua historia e o motivo dele morar na rua, seus sonhos. Não há como não ver a tristeza, solidão, desigualdade e miséria. Assim como não posso dizer que não presenciei companheirismo, sabedoria, gentileza, amor e alegria.

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Teve alguma dificuldade de aproximação com alguns moradores de rua?

Antes mesmo de começar a fotografar para  o projeto, o que mais me assustava era como eu abordaria essas pessoas. É preciso saber abordar cada um deles de forma diferentes, em parecer uma ameaça, ganhando a confiança de cada um. É engraçado porque em algumas situações eram eles que me abordavam, o que facilitava na hora de explicar sobre o projeto e conseguir os retratos e depoimentos. Por outro lado, alguns deles não me davam abertura alguma de aproximação, por defesa, embriaguez ou por outros motivos.

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Todas as histórias de vida que você escuta ao conversar com esses moradores devem ser marcantes. Mas teve alguma em especial que ficou marcada em sua memória?

Foi difícil extrair a história de cada um deles, uns preferem não falar sobre o seu passado, somente ser retratados através da foto. Outros já eram mais receptivos e falavam mais sobre sua vida e rotina.

Uma das minhas experiências foi bem marcante. Edna é o nome de uma moradora de rua que se emocionou bastante enquanto me contava um pouco sobre a sua história, sentia muita saudade de seus filhos, um deles está na Bahia e o outro em um abrigo em São Paulo. Era nítido o sofrimento e desespero que ela carregava e seu olhar. Ao se despedir de mim, Edna me chamou de bebê e me deu um beijo no pescoço como demonstração da sua alegria em compartilhar comigo um pouco da sua história.

 

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A sociedade se “acostumou” com os moradores de rua, como se eles fizessem parte da paisagem urbana. Essa é uma triste realidade, mas é um fato. Qual é o ponto de vista deles obre a nossa sociedade? Eles se consideram invisíveis na nossa sociedade?

Me lembro de um garoto, o qual não me recordo o nome, que conheci no centro, perto do mosteiro São Bento, quando ainda nem pensava em escrever o projeto. Estava em um bar com alguns amigos e ele veio me pedir algum tipo de ajuda. Começamos  a conversar sobre várias coisas, foi o primeiro contato que tive com um morador tendo a liberdade de conversar abertamente, como se já nos conhecêssemos. Era um garoto muito jovem que fugiu de casa por problemas familiares. Fiz essa pergunta a ele e ele me respondeu que a sociedade o ignorava e generalizava todos eles como marginais ou drogados, e que nem todos que moravam na rua são pessoas ruins.

A fotografia tem diversas funções, uma delas é “congelar” um momento. Qual a importância disso em seu projeto?

A temática do projeto é muito pesada e carregada de tristeza. Quando estou fotografando pessoa,s tento captar o máximo de emoção e espontaneidade. É claro que grande parte das fotos que fiz expressam nitidamente a melancolia de casa um deles, mas o que eu realmente busco é “congelar” o que eles são, e não a vida que vivem.

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As suas fotos são em PB. Qual o motivo de você utilizar essa técnica e qual a importância do PB no seu trabalho?

As fotos foram feitas todas em cor. Confesso que fiquei em duvida se iria expo-las coloridas ou PB. Tinha certo receio de que fotografias com esse tema ficasse, apelativas demais com o tratamento em preto e branco, mas quando comecei a editá-las, me apaixonei ainda mais pelas fotos ao vê-las convertidas, o quanto elas expressavam muito mais casa sentimento ali contido.

O cenário das fotos também é a “casa” dos moradores de rua. Como conseguir mostrar que alguém vive naquele “cenário do cotidiano” onde centenas ou milhares de pessoas passam?

Pra quem mora na rua, qualquer lugar se torna uma casa: uma calçada, um viaduto, um gramado ou até mesmo uma caixa de papelão, o mais importante é se proteger da chuva e do frio. Fotografar o espaço onde eles vivem é algo delicado – é a casa deles, com seus pertences, seus companheiros, suas roupas, seus animais e sua itimidade. Soa estranho dizer intimidade, quando não se tem portas nem janelas numa casa.

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O que você está prendendo com o seu projeto e o que você espera passar ao público com ele?

Foi um período curto, pouco mais de 6 meses, pude conhecer pessoas e historias que me fizeram refletir muito sobre o quanto é importante observar mais aquilo que se passa batido no nosso dia a dia. As pessoas, os lugares e tudo aquilo que nosso olhos não veem porque o coração não está suscetível a tudo isso. Fotografar esses moradores de rua me ajudou a me libertar do meu egoísmo, dos meus preconceitos e de tudo aquilo que me envergonha como ser humano. Minha intenção não é, e nem nunca foi, mudar o mundo, mas acredito que com esse trabalho eu possa gerar uma reflexão nas pessoas, e é a partir daí que as coisas podem mudar.

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[special-title]Mais informações[/special-title]

Veja mais sobre o projeto de Thiago em seu site.

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