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Ozeas Duarte aka Ozi
São Paulo, SP

Confira mais trabalhos aqui.

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[Zupi] Ozi, você é um dos precursores do graffiti no Brasil, ainda na década de 1980. Avaliando hoje, como enxerga sua importância na arte do país?
Difícil de responder, pois há tanta diversidade e caras muito bons fazendo arte na rua, com alto nível. Acredito que no geral essa grande manifestação de arte de rua criou uma nova visibilidade à ela, com a utilização de outras técnicas, como o desenho e a pintura. Acredito que o meu trabalho, e dos colegas que estavam lá nos anos de 1980, era sinalizar o caminho de que era possível uma arte sem amarras, sem a permissão das instituições que legitimam a arte. Sendo assim, o graffiti, na minha modesta opinião, é democrático. Todos o vêem e qualquer um pode fazê-lo.

[Zupi] No começo de sua carreira havia pouca abertura política e social, além do graffiti ser encarado uma arte clandestina. De lá pra cá, acredita quea relação dessa arte com a sociedade mudou?
Eram tempos bicudos, o povo alienado por um poder que não permitia as pessoas questionarem e muito menos se expressarem, tudo isso com uma ilusão de era para o bem de todos. O graffiti naquela época era mesmo clandestino e nem era considerado como arte. O Alex Vallauri foi quem deu esse salto, antes era só a escrita sem estética com palavras de ordem, picho dos políticos, recados apaixonados e muitas frases de duplo sentido questionando o estado em vigor.
Nesses quase 30 anos mudou tudo, principalmente o modo como as pessoas enxergam o graffiti e a pichação, mas ainda continua sendo assunto polêmico e está longe de ser unanimidade.

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[Zupi] Enquanto realizava seus trabalhos, já foi perseguido pela polícia? Há alguma história inusitada que queria compartilhar com os leitores?
Existem duas histórias boas. Em 1986, depois da abertura política, eu estava pintando na alça de acesso do Minhocão, próximo à Praça Roosevelt, com mais dois amigos, quando chegou uma viatura da ROTA com cinco “brucutus” armados até os dentes, pedindo que parássemos. Tentamos argumentar, dizendo a eles que éramos artistas e que estávamos fazendo uma arte para cidade, enfim… mas não teve jeito, fomos à delegacia. Chegando na 2ª DP, para nossa surpresa, o delegado disse: “São esses os subversivos?”, e deu risada. Nós não acreditamos no adjetivo e, perplexos, dissemos que éramos artistas… O cara já nos conhecia e falou que o graffiti era legal, mas como havia denúncia, tinha que averiguar. Depois disso, falou ao sargento: “Será que essa gente (policiais) não tem mais o que fazer? Deixa os caras pintarem”. E então voltamos de camburão e terminamos o que havíamos começado.

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Outra história aconteceu quando estava pintando minha menina com uma bazuca na Brigadeiro Luís Antônio. Chegaram na viatura alguns policiais e um desceu para falar que eu não podia fazer a ilustração, pois ela incitava a violência pública. Outra vez tentei explicar, dizendo a ele que era uma figura de linguagem, “sacaneando” o policial, porque não era nada disso. Ele contra-arguementou dizendo que eu teria que tirar a frase que dizia lá, pois não pegava bem. A pintura não tinha para ele; o problema era dizer às pessoas que matem os políticos. Mais uma vez eu fiz meu argumento, e disse a ele que o “matar” não era no sentido de assassinato, mas sim político – pois não dá para tolerar a “safadeza” que eles fazem com o Brasil. Foi então que fiquei surpreso com a reação do policial, que disse: “O senhor tem razão, cá entre nós, se houver um levante armado, sou o primeiro a ir lá e matar um monte desses filhos da p…”.
Então não disse mais nada e sai de fininho. Nesses anos todos nunca fui agredido ou desrespeitado pela policia. Só tive um único processo na vida e isso não faz muito tempo, já foi depois de velho. (risos).

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[Zupi] Hoje há muitos ilustradores e criadores que conseguem fama com o graffiti e a arte urbana. Como avalia a obra desses artistas brasileiros, como Osgemeos, Apolo Torres, Zezão e outros?
Osgemeos são unanimidade; desde sempre os caras são bons e elevaram o graffiti nacional ao reconhecimento global. No Zezão, acho foda a maneira como ele usa um espaço que não é valorizado e tão pouco nobre, para se fazer arte. O Apolo é bem interessante a maneira como ele mescla a rua com a ilustração e arte. Vou ficar só com os citados por vocês senão vou ter que dar muitas satisfações. (risos) 

[Zupi] O graffiti é uma arte em ascensão, que atualmente invade museus e galerias. Acha que essa mudança de realidade é benéfica à ela?
Sim, é benéfica, pois abre espaço para jovens talentos e isso é o que importa. Outra coisa legal dessa ascensão é que promove o acesso dos artistas e eleva a produção a um nível mais profissional, além de gerar debates, entre outras coisas. Claro que isso não é arte de rua, aquela que está nos muros e paredes da cidade. Essa é outra coisa e também tem seu valor.

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[Zupi] Como um dos criadores e incentivadores do Dia do Graffiti, evento que já faz parte do calendário de São Paulo, explique um pouco sobre essa data e sua importância.
O Dia do Graffiti nasceu da reunião de três amigos que queriam homenagear um outro amigo querido que se foi – o amigo citado é Alex Vallauri, um dos precursores do graffiti no país. A ideia era nos encontrarmos, confraternizarmos e utilizarmos muita tinta. A data – dia 27 de março -, até entrou no calendário da cidade, legalizada por um vereador, mas em 2004 o (Gilberto) Kassab – perfeito de São Paulo -, mandou retirar a data do calendário oficial argumentando que a prefeitura não podia compactuar com uma atividade ilegal, por existir a lei a favor da cidade limpa. Mas comemoramos assim mesmo, independente de ofícios, gabinetes ou do prefeito. Sei que muita gente não admite que se tenha um dia do graffiti, talvez por ser o Alex Vallauri o homenageado e por ter usado a técnica do estêncil nas ruas, mas as pessoas precisam conhecer a arte dele para entender sua importância na cena da street art brasileira.

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[Zupi] Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, é uma grande referência do seu trabalho. Em quais aspectos esse romance te encanta?
Quando tive contato com a Alice já era bem grandinho e adolescente, pelo filme da Walt Disney. Ao ler o livro, me impressionei com o tom provocativo do Lewis Carroll e virei um fã confesso da obra. O que me encanta é a maneira como o autor usa de um humor cínico e nonsense para criticar o poder tirânico daquela época; além do tom totalmente anárquico para um livro infantil, o que o torna sensacional.

[Zupi] É possível citar outras obras da literatura, da música e do cinema que te inspirem na criação?
Minhas referências são em grande parte do universo pop e da arte. A literatura é algo sofisticado para levar à rua; temos uma população inculta e quero que meu trabalho de algum modo chegue sem o lustro da erudição. A Bíblia é uma das referências. Tenho vontade também em passear pelo universo do (Franz) Kafka e do Gabriel Garcia Marques, mas ainda não tive coragem. Já o cinema é uma das minhas paixões. Tenho trabalhado para um projeto, chamado Enquadro, produzido pelo coletivo Casa da Lapa o qual várias disciplinas estão juntas e misturadas ao mesmo tempo, como cinema, música, animação, graffiti, teatro, artes plásticas e literatura, com o intuito de contar várias crônicas urbanas. Acabamos de rodar o segundo capítulo, um curta-metragem que está em fase de montagem e será apresentado no fim do ano no Rumos do Itaú Cultural.

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[Zupi] Como um artista ativo em todos os aspectos, poderia dar algumas dicas para quem está começando?
Não sou bom nisso, ralei muito e ainda ralo, continuo na busca do meu lugar. O que posso dizer é que o cara tem que trabalhar, trabalhar e acreditar no que está fazendo; mesmo que alguns digam algumas baboseiras vá em frente. O importante é sempre buscar relacionamento com os formadores de opinião, uma boa apresentação do trabalho e principalmente ter boas ideias para não cair no lugar comum. O mercado é um território a ser conquistado, por isso que sem luta não acontece. Atualmente temos muitas oportunidades, existem espaços culturais variados e muita gente interessada. A dica maior é: arregaçar as mangas e se jogar!

[Zupi] Para fechar, como avalia a sua arte daqui a pra frente. Haverá mudança na sua maneira de encarar o graffiti?
Sim, já mudou e continuará a mudando. Quando saio para pintar nas ruas é sempre com a intenção de deixar nos muros um trabalho com qualidade estética, assim como faria uma obra para ser exposta em um museu, galeria ou qualquer outra instituição. É uma transformação constante.

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