“Outras Meninas”: projeto ilustra relação feminina com o próprio corpo

Um tempinho atrás, quando falamos sobre Ju Romano na capa da Elle, alguns leitores (a minoria deles, a bem da verdade) não concordaram com o nosso ponto de vista. Nos disseram que estávamos divulgando um mau exemplo pra quem está procurando saúde, e que grande parte dessa “ideia de aceitação” (sic) tem por trás interesses de empresas de alimentos (!).

Mesmo assim, sabemos que falta de saúde, mesmo, é passar anos das nossas vidas em dietas mirabolantes tentando caber num modelo que vemos diariamente na TV, nas revistas, no cinema, mas que não nos representa – no tamanho, na cor, na forma, em qualquer aspecto. A ideia de que magro = bom e gordo = ruim pode ser contestada a partir do momento em que mudamos nossas próprias referências. Uma das principais formas para dar início e continuidade ao processo de aceitação e cultivo do amor ao nosso próprio corpo consiste em cercarmos-nos de exemplos positivos e de pessoas maravilhosas que não vão nos botar pra baixo.

Manu Cunhas é uma dessas pessoas maravilhosas. Pra entender melhor sua própria relação com seu corpo (que é bastante confusa), ela criou o projeto Outras Meninas, um espaço construído em conjunto, com meninas falando o que elas vêem no espelho. Por meio dessa descrição, Manu faz uma ilustração com uma interpretação do depoimento que leu – uma ilustração que dissocia o corpo gordo demais, o corpo magro demais, o corpo velho, o corpo tatuado, o corpo fora do padrão da imagem negativa.

Para que isso aconteça, as pessoas apreciadoras do projeto participam como autoras anônimas, mandando um texto – uma palavra ou muitas, que fale de sua relação com seu próprio corpo, e uma foto – do corpo nu – como referência para a ilustração.

Confira abaixo algumas ilustrações e alguns depoimentos:

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“A pele que habito há 26 anos conta histórias por si mesma. As estrias e celulites que me enlouqueceram na adolescência, a manchinha de depilação no buço, os arranhões feitos por meus gatos e que são renovados a cada semana, os lembretes diários escritos nas mãos à caneta BIC. E tem as cicatrizes. A primeira, na mão direta, um risquinho fino que ficou de uma mordida de gato quando eu tinha 4 anos. Depois, uma depressãozinha no canto da sobrancelha direita deixada pelo piercing dos 16 anos.

Aos 21, uma notícia que mudou minha pele (e minha vida) para sempre: eu tinha um câncer na costela. O intruso foi morto com 27 ciclos de quimioterapia e uma cirurgia que levou consigo meu quarto arco. Saldo final: uma tela de titânio, mais cicatrizes e uma vida nova. Nas costas, uma charmosa boca de tubarão. Ou o sorriso do Cheshire Cat da Alice. Ou mesmo uma rampa onde talvez eu tatueminha fusca (sim, é um carro fêmea) pegando no tranco. Um pouco abaixo dela, uma outra, deixada pelo dreno. Do lado direito do colo, uma pequena reta cor salmão ainda indica o lugar onde ficou o cateter. Depois disso, passei a amar e respeitar mais essa pele, fazendo questão de decorá-la com uma tatuagem. E espero que mais delas venham: tattoos, cicatrizes, rugas. Que a vida me marque até o fim.”

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“O problema é que eu gosto do meu corpo, mesmo velho. Aí você se pergunta, como isso pode ser um problema?

Bom, as pessoas esperam que você seja mais ‘humilde’ na terceira idade, com um tamanho de short decente ou uma roupa de banho grande o suficiente para tampar as marcas dos anos em você. Esses tempos fui com minha filha na praia e ela ficou horrorizada por eu ir de biquíni, já que ela mesma estava de maiô, para esconder o corpo meio flácido da gravidez.

Agora devo ter vergonha de ser o que sou? Já tive 10 corpos diferentes para cada fase da vida e agradeço a todos eles por ter chego até aqui e ainda conseguir caminhar mais rápido que meu neto na praia.”

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ansiedade

an.si.e.da.de

sf (lat anxietate) 1 Aflição, angústia, ânsia. 2 Psicol Atitude emotiva concernente ao futuro e que se caracteriza por alternativas de medo e esperança; medo vago adquirido especialmente por generalização de estímulos. 3 Desejo ardente ou veemente. 4 Impaciência, insofrimento, sofreguidão.

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“Comecei a ter problemas de auto-estima, principalmente em relação ao meu corpo, na pré-adolescência. Sempre fui pequena e magra demais. Lá pelos 10, 11 anos, vi todas as minhas coleguinhas de classe entrando na puberdade e ganhando peitos, o que me fazia me olhar nua e indagar: quando é que eu vou começar a virar mulher? O tempo foi passando, meu corpo continuava miúdo, e a parte que mais me incomodava em mim, também: meus seios. Essa ideia de crescer, ’‘encorpar e virar mulher” terminou se transformando numa obsessão, eu diria. Fui em vários médicos buscar saber qual era meu problema, queria tomar hormônios e ser igual as outras meninas, mas todos diziam o mesmo: que eu era saudável e que estava tudo bem. Isso me frustrou muito, como é que eu ficaria “normal”, então? Me olhava no espelho com ódio. Ódio. Até chorava, às vezes. “Eu sou uma aberração”, pensava. “Por que eu não tenho peitos? Nunca vou parecer uma mulher de verdade, sou muito feia, nenhum homem nunca vai me querer” (ah, a velha e violentadora necessidade de aprovação-senso-comum masculina).

Dos 12 até os 16 anos eu simplesmente parei de usar biquíni, e principalmente de ficar nua na frente de qualquer pessoa, até das minhas irmãs e mãe. Era uma vergonha tão avassaladora e bizarra que achava que meu corpo não era digno de ser olhado por ninguém. Me sentia tão infantilizada, andrógina até, afinal, mulher tem que ter peito, senão não é mulher, tem que ter onde pegar, não é? Até que em um belo dia eu conheci o feminismo, e comecei, bem devagarinho, a desconstruir esses padrões surreais internalizados, e aos poucos iniciei um processo de amor próprio e descobri que sou bonita e atraente. Não foi fácil, aliás foi dificílimo, uma grande luta interna. Até então, não conseguia nem cogitar a possibilidade de me achar bonita a não ser que me tornasse uma super gostosona peituda e sensual.

Quem tem ou tinha problemas de auto-estima sabe o que é ter repulsa da própria imagem refletida no espelho. Porém, vendo beleza nas mulheres empoderadas que não estão dentro desse padrão absurdo, vi que também sou linda da minha forma, aliás, maravilhosa, como todas as mulheres desse mundo, que também merecem se sentir bem com elas mesmas e jamais ter vergonha da própria aparência. Jamais. A todas as mulheres de peito pequeno, dedico esse texto. A todas as mulheres que se acham magras demais, gordas demais, velhas demais, feias demais, isso ou aquilo demais, dedico esse texto. A todas as mulheres que buscam incessantemente se transformar no tipo de mulher que querem que sejamos, dedico esse texto. Vocês, todas vocês, são lindas e perfeitas precisamente como são. Desejo que nenhum padrão que nos é imposto constantemente nos aprisione. Que nós nos empoderemos e nos tornemos donas, em todos os âmbitos, de nossas mentes e de nossos corpos.” 

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“Desde que eu me lembre por gente sou gorda. No começo eu era só ‘gordinha’, aquela criança um pouco maior que as outras, mas que chamava MUITA atenção por ainda ser mais alta que o resto, e uma coisa que aprendi na vida é que crianças são criaturas excepcionalmente maldosas quando podem. Os anos foram passando e fui ficando cada vez mais gorda e cada vez mais incomodada com esse fato (no colégio as coisas não melhoraram), até que eu percebi uma coisa genial: porque deixar os outros rindo de mim se eu mesma posso fazer a piada?

Agora eu era demais, a amiga gorda engraçada. Eu era o ‘brother’ dos meus amigos, a pessoa destemida e cômica que nem ligava para o que os outros falavam, um verdadeiro cara grosso e palhaço. Essa foi a fórmula da minha vida, uma maneira simples de me enturmar onde quer que eu fosse, me dando muito bem com homens, mas não de uma maneira romântica, é claro. Ignorei o fato de odiar ser o gordo do grupo, de ser a engraçadona que não tem um pingo de feminino no corpo e fui tocando a vida.

Depois de vários anos nesse papel comecei a ter azias constantes, que evoluíram para gastrites, que evoluíram para uma simpática úlcera. Comecei a ficar menos engraçada e mais ácida, seguindo o fluxo do meu próprio corpo, com isso minhas relações mudaram – eu me tornei a gorda desagradável. Eu já estava na faculdade, não estava mais com saco para agradar ninguém e nem tinha mais contato com meus colegas do colégio, simplesmente não ligava mais. Me tornei a gorda grossa, as pessoas diziam que eu era lésbica (porque naturalmente que não ser feminina é sinônimo de lesbianismo) e fui tocando na minha vida profissional. Me tornei reclusa e comecei a olhar para o que havia de mais lindo e era o que eu estudava – o céu. Não tenho que ser bonita ou engraçada onde estou agora, o que importam são os resultados do meu trabalho, que vai muito bem, obrigada. O que tenho agora são horas de silêncio e pesquisa, num lugar onde sou reconhecida pelo que faço, desviando os olhos da tristeza humana que me cerca, na companhia simples do vazio.”

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“Eu sempre cresci rápido demais.

Aos 11 anos, quando a maioria das meninas ainda usavam roupas bonitinhas e fofas e sem preocupações, eu já morria de vergonha porque, ao contrário delas, eu tinha seios. E de um tamanho considerável, o que me fazia ir ao colégio usando duas blusas como se isso pudesse esconder alguma coisa. Quando se é a única pessoa diferente do seu grupo, nessa idade, você não se sente sortuda por ter um corpo desenvolvido, mas envergonhada. Envergonhada, sim, é como me senti por muito tempo na minha vida e, talvez, o sinta até hoje.

Não há nada de suave nas minhas curvas, não. Tenho as coxas grossas, que raspam uma na outra quando caminho, que sempre atraíram olhos mesmo quando eu era muito nova para entender – e isso talvez tenha me feito ficar muito envergonhada, tímida, consciente do meu próprio corpo como algo a ser encolhido para parecer menor. Até hoje, não me sinto confortável em roupas curtas ou apertadas, nada que me mostre demais e me faça sentir exposta aos olhos de todo mundo. Talvez por isso, nunca tenha feito sexo. Há algo de incômodo em ser desejada, e ao mesmo tempo que eu quero, uma parte de mim sempre se assusta – a parte da menina que cresceu muito pra idade dela.

Hoje, eu aprendi a tirar prazer sozinha do meu próprio corpo. Mas olhar para ele, despido de tudo no espelho, ainda é difícil. Meus seios, sempre eles, cresceram tanto, pesaram tanto, que acabaram por cair. Tenho o pacote de coxas e canelas grossas que soam bem em sambas mas que, na vida real, parecem não cair bem com nada. Eu não sou magra, nunca fui, tenho a plena consciência de que nunca serei, mas isso tem me incomodado bem menos agora do que incomodava antes. Certo, não serei vista usando decotes, saias curtas, biquínis cavados, mas e daí? Eu gosto das minhas roupas e de como elas caem e de como elas me fazem ver a mim mesma. Mais importante, eu não tenho tentado me achar bonita, mas apenas normal. Uma pessoa normal que não seria notada na rua pelos seios ou coxas ou bunda, é como eu venho tentando me sentir.

Aos 26, ser virgem não me incomoda mais, ser gordinha perdeu a importância, me sentir bem pareceu ser o melhor a tentar – e ainda há chão demais para que eu me sinta realmente bem, mas já não é algo tentar?”

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“Sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
de querer cabelo liso
já tendo cabelo louro
cabelo duro é preciso
que é para ser você, crioulo”

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“Eu sempre tive problemas sérios comigo mesma, não era só com o meu corpo, mas era mais fácil descontar nele. Tive uma infância e adolescência bastante complicadas e eu me odiava. Detestava tudo: minha personalidade, meu peso, meu cabelo, enfim, uma merda. Demorei muito tempo para descobrir que eu tinha depressão e sentia uma aflição tremenda de ser eu. Quando comecei a me cortar não foi porque eu queria morrer ou porque eu achava legal aparecer toda fatiada na aula (muito pelo contrário, já que ficava com vergonha e sempre andava de moletom – mesmo nos dias infernais de calor), só naqueles momentos de automutilação eu sentia um alívio enorme, não sei explicar bem, mas eu conseguia desligar minha cabeça e me sentir bem de algum jeito.

Depois de vários anos nessa situação, comecei a me cercar de pessoas muito boas, que me ajudaram a melhorar vários aspectos da minha vida. Eu comecei a fazer terapia e me gostar mais, e comecei a me encarar mais de frente. Ainda sou gorda, ainda sou estranha, mas eu posso dizer que me gosto grande parte do tempo. Eu descobri o mundo das tatuagens que agora é uma parte gostosa da minha vida – cada tattoo que tenho é algo importante que quero deixar marcado, não uma vergonha, mas um orgulho. Ainda tenho meus momentos complicados, mas as coisas vão indo bem :)”

Se você se identificou com o espaço, envie sua foto e seu texto para o email outrasmeninas@gmail.com para que você e Manu se entendam um pouco melhor. Você também pode acompanhar o projeto pelo Facebook e pelo Instagram.

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