O Curioso Caso da Tipografia e do Design

A sala escurece e elas surgem com movimentos e entradas, envolvidas por imagens, grafismos ou efeitos especiais. Muitos continuam conversando. Poucos prestam atenção ou entendem como podem contar uma história e preparar um ambiente para a magia do cinema.

Às vezes, elas aparecem ao final do filme e o mesmo se repete, com a grande maioria do público saindo logo após a última fala. Raros são os que ficam para ver os créditos finais que, por vezes, continuam contando a história.

Sou apaixonada por aberturas, créditos de filmes, pela tipografia e por como ela é uma parte importante da história que será contada. A preocupação com a tipografia deveria ser comum entre designers, mas conheço gente que não dá a mínima para o seu uso no cinema.

Não devem ser escolhidas apenas pelo conceito de legibilidade, leiturabilidade ou por serem “parecidinhas” com o estilo do filme. Devem possuir em seu corpo hastes, serifas, um pouco da alma, da personalidade do filme. É o que chamo de sinestesia tipográfica.

Bolds, lights, versaletes, itálicas, rebuscadas, clássicas ou ultra modernas. Romanas ou góticas. Com serifas ou sem serifas que podem ser retas, volteadas ou angulosas. As possibilidades são diversas, mas essa diversidade deve representar exatamente o filme que iremos assistir.

Algumas aberturas, ou encerramentos, são inesquecíveis. Poderia citar aqui a abertura de “Prenda-me se for capaz” e o encerramento de “Wall-E”, que tem toda a minha torcida para vencer os prêmios do Oscar aos quais concorre. Nesse caso, mais específico do encerramento de “Wall-E”, quem saiu antes dos créditos finais não viu a continuação da história. Simplesmente uma obra de arte dentro de outra.

Em tempo de Oscar 2009, quero falar aqui dessa delicada e criativa relação entre o design, a tipografia e o cinema nos créditos dos cinco filmes que concorrem a melhor filme este ano. Gostaria de falar de seus cartazes também, alguns deles maravilhosos, mas fica para outra oportunidade.

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Por DaCosta

Recortes de jornais, revistas, cartazes de lojas nas ruas, letreiros e fachadas. Uma tipografia que mescla a força do poder e da vontade de uma comunidade. Força política estampada nas letras clássicas dos recortes de jornais. A tipografia mais simples, que por vezes representa a luta pelos seus direitos, aparece mais no meio do filme, com mais força envoltas na história, datando o filme ou em panfletos da canditura de Harvey Milk: cores vibrantes ou contrastes simples como preto-e-branco, mas com mensagens fortes e diretas como as fontes impressas nos panfletos. Vale a pena notá-los, assim como os cartazes de campanhas nas ruas e até o primeiro palanque de Milk: um caixote escrito “soap”, sabão. Uma simplicidade presente desde a abertura onde, além da fonte simples e quase invisível, cores sóbrias em meio a recortes reais de uma época, contam a história de um homem que lutou pela igualdade. Assim começa Milk, história real da vida de Harvey Milk desde a sua chegada a São Francisco, até o seu assassinato, em 1978. Foi o primeiro homossexual assumido a ocupar um cargo público nos Estados Unidos. A tipografia inicial é simples, quase não percebemos a sua existência. Uma falta de legibilidade proposital para ressaltar a importância maior das imagens reais e dos recortes de jornais que são o pano de fundo da abertura. O nome do filme, Milk, aparece logo depois do nome de Sean Penn, que faz o personagem principal. Vi mais de duas vezes essa abertura e só percebi o nome do filme na terceira vez, quando buscava mais detalhes. Logo depois, uma tipografia surge, se apresenta, em branco, grande, forte, potente, estampada sobre o fundo negro, um alto contraste em letras garrafais e fálicas para todos verem: MILK . Perfeito!

• História real sobre a entrevista feita pelo jornalista David Frost com o então presidente do Estados Unidos, Richard Nixon. Com base no jornalismo e na política a sua abertura não poderia ser diferente: uma voz em off começa a narrar o que está acontecendo e se mantêm durante boa parte da abertura. Créditos em tipografia que lembram os grandes jornais e as suas proporções como títulos, linha fina e chapéu com alinhamentos classicamente centralizados, até que o nome dos atores principais aparecerem, Michael Sheen e Frank Langella (respectivamente Frost/Nixon). Estes são os únicos nomes que aparecem em um alinhamento que simboliza oposição, embate. Um para esquerda outro à direita; um mais acima e outro abaixo. Com isso apresenta-se a história: um embate jornalístico e político entre estes dois atores. Corte. A voz em off continua sobre um fundo negro. Corte. Uma válvula de TV aparece em primeiro plano. Corte. Um sinal de televisão falha. Corte. Cenas de um telejornal e seu apresentador narrando fatos. Sobre esta cena se apresenta o filme: Frost/Nixon .  Os créditos continuam tendo ao fundo cenas reais em preto-e-branco que são mescladas a cenas do filme coloridas. Aparecem como legendas de jornais ou de telejornais, que às vezes se confundem com as legendas e créditos do filme. Uma clara relação entre a realidade e a ficção em que é apresentado, aos poucos, o primeiro personagem do filme: Nixon. Assim, a apresentação tipográfica se estende até um pouco mais dos seis minutos. Os créditos só terminam quando o segundo personagem é apresentado ao público: Frost. Uma abertura simples, jornalística e politicamente correta.

• Som de um piano delicado, suave e melancólico de fundo. Em branco sobre um fundo negro, letras delicadas, pequenas escrevem: “Berlim, Alemanha”. Logo depois, ainda com o piano, uma data: “1995”. Aí já se cria alguma sensação. Com esse piano e letras tão delicadas é impossível não se trazer a lembrança do nazismo à mente, tema sempre relacionado à Alemanha. Corte. Um café-da-manhã é minuciosamente arrumado. Simétrico, frio e distante. O piano ainda continua de fundo, para mostrar uma relação entre um homem e uma mulher um tanto quanto fria em um apartamento quase que totalmente branco e clássico. Até que um trem amarelo passa pela janela e o filme acontece. As fontes, créditos, tipografia só voltam a aparecer no final do filme, depois de 1h55min45s, com o mesmo fundo negro, o mesmo piano, em um clima de solidão, delicadeza e com um certo peso de morte. Trata-se de uma história de amor e sobre o nazismo. Talvez, por isso, se assemelhem neste momento com lápides. Aos poucos, enquanto o piano vai tocando sua música triste e carregada de lembranças, o negro com suas letras delicadas apresenta produtores, direção, atores e o nome filme com delicadeza e suavidade como se preparasse o texto para “O Leitor” .

• Teoria do caos, fractal, patafísica, acaso, destino. E acima de tudo: sonho, fantasia e amor. Uma série de botões caem do alto. Possuem várias formas, tipos e cores formando o símbolo da Paramonut e depois da Warner Bros. Por quê? Não dá para contar. Só digo que tem relação direta com as minhas palavras iniciais. Ela, a tipografia não aparece. Créditos iniciais também não existem. Existe um relógio e se inicia, uma bela história, um conto maravilhosamente mostrado em 2h46m que não percebemos passar. Poderia dizer que O Tempo é a abertura do filme. Abertura que só vai aparecer no encerramento e com os mesmos botões caindo do alto. Com cenas que fecham um ciclo e com palavras inesquecíveis. Sobre tipografia? Difícil falar sobre elas. Aparecem no final dando nome ao filme. São delicadas como o filme. Simples e leves porém fortes como o conto. A tipografia mais marcante é a dos números que marcam as horas de um relógio bem particular, o mesmo do início e que também encerra o filme e trabalha de um modo bem curioso. Para entender ou saber mais sobre essa abertura/encerramento que não dá para contar só assistindo ao “Curioso Caso de Benjamim Button” .

• Se existisse Oscar para melhor abertura, entre estes cinco filmes, com certeza esta seria a vencedora. Que também só acontece no final. No início apenas uma pergunta de múltipla escolha é feita ao público. Depois, cenas que se alternam entre o uso exagerado de amarelos, azuis e um balde vermelho. Cores associadas a nervosismo, insegurança, dúvida, medo, angústia e paz. Perceba quando e porque cada uma é utilizada. De repente, um corte. Cores reais, cenas reais, garotos correndo em uma cena extremamente parecida com “Cidade de Deus” – essa similaridade também é clara em outros momentos do filme. Um destes garotos pula com a mão para cima como se fosse vitorioso. Ele está com uma camiseta verde escrito em amarelo “Slumdog Milionaire” . E o filme rola e muito bem. No final, aí sim, um encerramento bem ao estilo videoclipe de Bollywood. É simplesmente perfeito o encerramento. Com um visual e tipografias totalmente indianas, ou que nos levam facilmente a esta associação. Novamente muitos amarelos, laranjas e vermelhos, associados a toques de azuis e violetas com uma pitada de verde. A música é maravilhosa e acredito que ganhe o Oscar de melhor canção e está em perfeita sincronia com o Design e Tipografia. Sobreposições de imagens, ângulos de câmeras, montagens, luzes e sombras bem ao estilo dos tecidos e tradições indianas. As mandalas não faltam e estão representadas por círculos que vez por outra aparecem juntos aos grafismos indianos. A tipografia principal tem um design nota 10: além de possuírem um corpo e forma perfeitos, possuem movimento e se alteram em suas cores. Parece ser brega, cafona? Parece ser uma grande mistura exagerada? Mas como você responderia a pergunta: “Quem quer ser um Milionário?”. Acredito que com muito entusiasmo e força. Força que esse filme possui. Entusiasmo que a música de encerramento passa. E então: “Quem quer ser um Milionário?”.

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Por Fabio Machado

Espero que tenham gostado. Queria muito falar dos cinco filmes antes do Oscar. Se puderem vejam e me digam o que acharam, do filme e/ou créditos. Minha opinião é que o melhor filme fica para “Slumdog Milionaire”, mas gostaria que ganhasse “Benjamin Button”, meu favorito.

Um bom design, uma boa tipografia e bom filme a todos.

***

O filme deste artigo: meu favorito Benjamin Button

A música: do grande Chico Burque , Roda Viva, perfeita para o filme acima.

Márcia Okida é designer gráfico, vice-presidente da Associação Cultural Vontade de Ver. Professora nos cursos de Produção Multimídia, Jornalismo e Publicidade & Propaganda; coordenadora de Produção Multimídia. Universidade Santa Cecília (UNISANTA). Visite seu blog E-mail: okida@uol.com.br

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