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O termo Beat é de origem controversa. Jack Kerouac defendia que o termo fosse uma abreviação de beatitude. Allen Ginsberg nominava seus devassos e esquisitos amigos de farras e poesias, como beatificados – “mendigos santos sofredores e fodidos”. Outras fontes alegam que essa denominação estava relacionada à influência do jazz por sua batida, ritmo e improviso, mas também como parte de um novo arsenal de gírias da época, associado a um fenômeno da mídia devido ao primeiro satélite lançado ao espaço, o russo Sputnik. Devido aos comportamentos nada ortodoxos desse grupo, um crítico do jornal San Franciso Chronicle , em 2 de abril de 1958, chamou-os de forma depreciativa, de “Beatniks”, fundindo o nome do satélite (símbolo de novidade e velocidade) às suas aparências desleixadas, suas ousadia em ouvirem música negra e por espalharem uma literatura direta e espontânea, que ignorava as regras da academia.

Imagem do filme On the Road de Walter Salles em 2012

 

O Movimento Beat irá absorver o “fluir” do Surrealismo onde o inconsciente se torna matéria de criação de arte num emaranhado de escapes com fortes doses de uma anarquia intuitiva, em total negação às hierarquias sociais e posturas irreverentes, nunca vistas antes por grupos jovens. A aparência caótica de seus comportamentos imporá um debate entre as famílias tradicionais estadunidenses, cujos problemas de rebeldia ligados a uma determinada faixa etária da sociedade organizada do Ocidente são identificados. Começa a surgir a “juventude transviada”.

Os beatniks com seu Movimento Beat buscarão essa índole anárquica de criar e produzir, propondo a extinção da censura sobre vivências e sensações, isto é, sem as noções de bem e mal, de certo e errado, de santo e pecaminoso. A liberalidade sobre a subjetividade surge num momento em que o peso da existência de uma sociedade massificada e moralista, aparece como subproduto da industrialização que começa a se impor no cotidiano social do pós-guerra. Freud, figura que vem surgindo desde o Surrealismo e se torna imperiosa com o existencialismo de Sartre, jogará lenha na fogueira dos experimentos vivenciais. Contra a máxima sartreana de que “o inferno é o Outro” em cidades superpovoadas, os Beats  escolhem as estradas como via para seus próprios Paraísos e o Movimento Beat torna-se nômade, festeiro, drogado e imerso na poesia transgressiva de uma geração que se opõe à sociedade puritana subserviente às leis do mercado e o deslumbramento às tecnologias que escravizam e massificam.

A longa estrada 66 (Route 66) que atravessa os EUA de Leste a Oeste levou a Geração Beat de Nova York para São Francisco

 

Com a Geração Beat as condições repressivas da sociedade do pós-guerra, começam a ser pulverizadas pela força da indústria cinematográfica com filmes de extrema violência existencial como o Vidas Amargas (East of Eden, de 1955), que foi um escândalo, visto como uma delação dos silêncios impostos por uma estrutura familiar e social repressora, acovardada e violenta. A este filme, seguiu-se Juventude Transviada (Rebel without a Cause, do mesmo ano de 1955) que levantou mais polêmica, mas sempre abafada pela própria indústria do cinema, jogando com o glamur do jovem ator James Dean para relativizar impactos sobre conceitos morais de uma sociedade puritana que, até então, esforçava-se para se manter casta e vigorosa como padrão social. Mas a cortina do moralismo já estava rota.

A polêmica evidenciava questões perigosas em um momento delicado da Guerra Fria, quando o macarthismo, em plena cruzada contra o comunismo, perseguia adversários e críticos dessa sociedade, que via sua herança puritana, cristã e castradora, tornar-se monstruosa ao invés de virtuosa como sempre acreditou ser, através do american way of life que, neste momento, é posto em cheque.

Além do cinema, o movimento Beat chegaria ao Brasil pela qualidade literária, principalmente de três de seus mais famosos representantes: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, entre outros. Esse movimento, em si mesmo, já era um emaranhado de influências, com ingredientes explosivos que incluíam a rejeição ao modus vivendi da classe média estadunidense e seus objetivos de consumo, a imposição de uma higiene pessoal e aparência apolíneas, duplicadas nas relações interpessoais formais, hierarquizadas e competitivas.

Jack Kerouak

 

Essa busca de aventuras por deslocamentos geográficos e inquietações nos subterrâneos da consciência e do corpo, percorriam caminhos freudianamente perigosos, repletos de porões e sótãos de si mesmos. Nessas viagens, além de seus carrões baratos pela explosão da indústria automobilística dos anos ’50 e ‘60, também mergulhavam em outras vertigens levados pelo álcool, as drogas, a música inebriante e a ‘escrita automática’ aprendida do Surrealismo, produzindo golfadas de imagens instantâneas com passagens ao desconhecido íntimo, talvez até, seus próprios monstros.

Em suas pesquisas artísticas, uma das marcas mais impressionantes foi denominada por Kerouac de “prosódia bop”, significando uma linguagem rápida, com versos longos, misturas espontâneas, saltos de ideias livres como os compassos do free jazz, não domesticado, impaciente e marginal. Nessa mesma ‘vibe’ alguns nomes do jazz do período ficarão associados aos road-poets como Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Thellonious Monk, mas também o experimentalismo nas artes plásticas, que buscava se perder sem domínio, como a pintura gestual de Jackson Pollock jogando o corpo, o suor, as raivas e erotismos em golpes de pincéis em febre, produzindo todos juntos e fragmentados os “anais” da Beat Generation.

The Beats

 

Apesar da fama de vagabundos, afinal fizeram-se nômades grande parte de suas vidas, tinham em sua maioria, formação universitária ligada às letras, e todos eles, ou quase todos, viveram de vender seus textos às editoras e jornais, mesmo quando em trânsito pelas estradas do país, via correios. Pode não ser tão romântico conhecer essa realidade dos Beats, mas poupou seus integrantes da pobreza absoluta, garantindo o nomadismo. De qualquer modo, fosse pelo marketing da indústria cinematográfica, por um inconsciente coletivo que já se indispunha aos padrões rígidos das sociedades cristãs do Ocidente, ou pela alta qualidade da produção literária da maioria de seus integrantes, suas ideias escaparam do país, espalhando-se por outros Continentes.

Herdeiros desse movimento no Brasil, grandes poetas vivos ou idos são Claudio Willer, Roberto Piva, Rodrigo de Haro, Antonio Fernando de Franceschi, e outros.

 

SUGESTÕES DE LEITURAS:

– Jack Kerouac – On the Road (pé na estrada)

– Allen Ginsberg – Uivo, Kaddish e outros poemas

– Williams Burroughs – Junky

– Roberto Piva  –  Paranóia

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