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Nina Moraes
Porto Alegre, RS

Confira mais trabalhos aqui.

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[Zupi] Nina, como tudo começou? Conte sobre o início de sua jornada pelo mundo das artes – e das ruas.

Sempre desenhei como toda criança e tive muita influencia em casa dos meus pais que tinham sempre o cuidado de me deixar munida de lápis e papel. Assim, desde pequena, estrapolava os limites da folha de papel e invadia paredes, livros, móveis e o que mais aparecesse pela frente. Mas foi na juventude que o desenho veio com mais força, logo se mostrando como ofício. Sou formada em jornalismo e, quando entrei na faculdade, além de desenhar, fazia fanzines. Meus primeiros estágios já envolviam criação de imagens: primeiro como fotógrafa e depois como ilustradora. Em função dos fanzines, conheci o Lucas Ribeiro “Pexão” no curso de comunicação. Na época, ele já era super engajado no movimento da arte urbana e estava abrindo a Galeria Adesivo, um espaço especializado no tema, e me convidou para participar da primeira coletiva. Lá conheci o Trampo, o Mateus Grimm, o Flip, e uma turma que já estava nas ruas há um tempo. Isso foi muito estimulante. Na época eu já estava super afim de pintar na rua, então não demorou para em certa noite eu colocar uma mochila nas costas, munida de tinta preta e pincel e arriscar meus primeiros rabiscos nas superfícies da cidade. E lá se vão quase 8 anos…

[Zupi] Quais as suas referências?

Minha referência é todo um mundo em movimento. A leveza das linhas orgânicas da natureza, retratos antigos, música, sentimentos humanos mundanos e obscuros, quadrinhos, Diane Arbus, arte bizantina, flamenca, deco, nouveau, jazz, Bach, Augusto dos Anjos, conjunções astrais e, sobretudo, pessoas.
 
[Zupi] A linha, mais do que guiar os contornos e formas de seus desenhos, parece ser o principal traço de suas criações. Como foi desenvolvido esse estilo?

A linha é um dos elementos primordiais do meu trabalho. Através dela busco a síntese da forma e como expressar muito com o mínimo. A linha guia, contorna, esboça, concluí, fluí por caminhos nem sempre conhecidos. Nas ilustrações a linha tem presença muito forte e simbólica, já nas ruas venho explorando uma nova linguagem, suprimindo a linha, ou melhor, negativando ela. Tem me interessado o avesso da linha, o preenchimento e não o contorno. Foi uma solução estética que encontrei para retratar figuras cada vez maiores, grandes blocos de cor contornados por uma linha imaginária. Bico de pena direto no papel, pincel direto no muro e vamos ver no que vai dar.

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[Zupi] Suas intervenções são realizadas, na maioria das vezes, com pincel. Por quê?

Na rua me interessa a estética do pincel, o traço sequinho, vetorial, cores chapadas, sem as nuances e os esfumaçados do spray.

[Zupi] Figuras femininas imperam em suas ilustrações. Por que essa predominância de mulheres em seus desenhos?

Me parece muito elementar retratar figuras femininas. Há algo de íntimo e próximo. Sinto certa cumplicidade com cada personagens e na forma como eles comunicam. Talvez seja inevitável que tenham sempre algo de mim, assim como de qualquer um que possa transpor o limite do traço, indo além da superfície do papel ou do muro.

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[Zupi] Ainda sobre o universo feminino, você acha que a participação das mulheres na cena urbana, espaço predominantemente masculino, vem aumentando?

É verdade que é um espaço predominantemente masculino, talvez pela natureza agressiva do graffiti, mas cada vez mais aparecem meninas fazendo intervenções nas ruas do mundo todo e com trabalhos muito expressivos. Elas sobem em escada, colam, desenham, pixam, pintam trem e se precisar, até correm da polícia – o que faz essa questão de gênero perder um pouco a importância atualmente.

[Zupi] Seus desenhos relevam um mundo lúdico, repleto de seres meio humanos, meio fantasiosos. Existe alguma relação entre a sua arte e a realidade ou a idéia é fugir dela? 

A realidade é a referência, mas estranhamente ela sempre carrega consigo algo de mágico, de inexplicável e de assustadoramente verdadeiro.

[Zupi] Seu fotolog é intitulado Freak Show. Seria a vida nossa de cada dia uma espécie de circo dos horrores?

É possível que façamos todos partes do grande elenco de um show bizarro que é a vida. Quantos de nós temos duas cabeças, ou nenhuma, temos asas, olhos vazados, não temos mão ou então temos quatro pernas? Que tipo de aberrações encontramos na existência de cada um de nós? Pare, sinta, perceba…e que rufem os tambores!

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[Zupi] Você é gaúcha, mas já realizou intervenções em outras cidades brasileiras. Destacaria diferenças entre os estilos de graffiti produzidos nessas diferentes regiões? Ainda sobre essa questão, como você vê a produção de arte de rua em Porto Alegre?

Acho que aqui se faz uma abordagem bastante lúdica nas pinturas de rua. Há uma intenção de comunicar, de dialogar de maneira simbólica e harmônica com a cidade através de diferentes abordagens, estilos e linguagens. Como é característica da produção brasileira, pinta-se com o que tem. Não precisa ser só com melhor material, há grande espaço para o improviso. Achar um resto de tinta na rua certamente vira desenho.

[Zupi] Saindo das ruas e adentrando estabelecimentos privados, suas ilustrações também podem ser encontradas em bottons, livros e campanhas publicitárias. Há algo que diferencie trabalhos voltados ao mercado dos trabalhos autorais? Você os vê da mesma forma?

O desenho é meu ofício, meu ganha pão, mas também é meu playground. Acho que a principal diferença em se criar tendo em vista o mercado, fora o dinheiro, é o suporte. É desafiador e estimulante pensar diferentes formas de aplicação do desenho. Esses meios exigem um forma de trabalho bastante dinâmica. A abordagem é mais autoral quando se lida com produtos, insana quando se é brifado em publicidade e em publicação editorial exerço meu lado jornalista ao trabalhar com texto. Gosto de trabalhar em todas essas frentes e tenho a sorte de ter conquistado um espaço no mercado onde se valoriza o estilo do artista, independente da finalidade da criação será sempre um desenho bastante autoral.

[Zupi] Qual dica você daria para quem está começando agora?

Faça pelo menos um desenho pro dia.

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