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Mauricio de Sousa
São Paulo, Brasil

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[Zupi] Como tudo começou? Qual foi o estopim para o sucesso do seu trabalho?

Bem, eu sempre quis ser desenhista. Então, um dia fui à Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo) para tentar publicar minhas tiras. Como não consegui, ia saindo da redação todo cabisbaixo quando o jornalista Mário Cartaxo me parou, viu meus desenhos e me deu a dica: tentar entrar no jornal em outra função. Como eu sempre li muito, consegui um emprego como copidesque. Depois de um tempo, houve um concurso e acabei ganhando a vaga de repórter policial. E foi nessa época de repórter que consegui publicar a primeira tira do Bidu, em 1959. Como exercer as duas funções era impraticável, optei por ser desenhista. Ainda bem.

[Zupi] Qual é o princípio básico (idéia central) e a proposta das primeiras tiras e, conseqüentemente, da “Turma da Mônica”?

Meus primeiros personagens, Franjinha e Bidu, já buscavam um público infantil. No entanto, suas piadinhas agradavam também ao público mais adulto. Quando criei todos os principais personagens da turminha, as histórias já eram bem direcionadas ao público infantil. Minha primeira revista editada pela Abril em 1970 tem as mesmas características básicas das publicadas hoje pela Panini. Mudou só o visual dos personagens e a linguagem, que precisa ser sempre atual e exige acompanhamento constante.

[Zupi] Por que a opção por desenvolver um gibi, dito, infantil?

O gibi é o caminho natural para quem quer desenvolver histórias mais elaboradas do que uma piadinha de tira. Depois, ter uma revista própria é um desafio que todo desenhista deve enfrentar. Cria uma ligação mais estreita com seu público num diálogo que faz o personagem crescer.E trabalhar para crianças é extremamente gratificante, pois elas são extremamente sinceras. E como a Turminha está fazendo sucesso até hoje, creio que seguimos o caminho certo.

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[Zupi] Como você define o seu estilo? Quais são as fontes de inspiração?

Gosto de fazer quadrinhos de humor para crianças. Acredito que essa minha inspiração vem dos filhos, amigos e lembranças da minha infância. Bebi de várias fontes para desenvolver personagens. Esta é uma das razões do sucesso da Turminha. De alguma forma, os leitores sabem que minhas histórias não são apenas criações, mas um espelho do que vivemos no dia-a-dia. A Mônica, todo mundo sabe, é minha filha. Assim como a Magali, a Maria Cebolinha, o Nimbus, o Do Contra, a Marina e o Professor Spada.

[Zupi] Com qual personagem você se identifica mais? Por quê?

Eu me identifico com todos os meus personagens, pois cada um tem um pouco de mim. Muita gente acha que me vejo mais como o Horácio, mas, na verdade, quando estou fazendo um personagem, naquele momento “sou” ele. O pessoal fala que o Horácio é meu alter ego, por causa do jeito meio filosófico e por ser um defensor da natureza. Mas essas não são nossas únicas semelhanças. De vez em quando, também me sinto um dinossauro.

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[Zupi] Qual é a sua visão das Histórias em Quadrinhos no Brasil?

Sempre acreditei nesse mercado. Talvez tenha conquistado um público que, na época, só lia quadrinhos vindos de fora do Brasil. Portanto, há formas de ganhar mercado sem necessitar de leis de proteção. Não foi fácil. Comecei a publicar em 1959 e só fui publicar minha primeira revista (Mônica) em banca em 1970. Hoje, colhemos os frutos desse trabalho. Enquanto muitas revistas vêm caindo em vendagem nas bancas, me orgulho de dizer que em 2007 já tivemos um aumento de 12% nas vendas, em relação ao ano passado.

[Zupi] É possível verificar alguma influência dos anos 70, quando foi lançada a primeira publicação, nos traços atuais.

Os personagens basicamente são os mesmos. A Mônica mudou de penteado, O Cebolinha perdeu cabelo e assim por diante. Aliás, estamos justamente nesse momento relançando os primeiros números das revistas da Mônica, Cebolinha, Chico Bento, Magali e Cascão para não apenas resgatar os antigos leitores, mas para mostrar para os atuais que a Turminha já passou por muita coisa. E evoluiu bastante. Para preservar o aspecto histórico, mantivemos a grafia das épocas em que cada revista saiu e as cores utilizadas também. É uma deliciosa viagem no tempo, que ficará ainda mais gostosa porque incluímos pequenas notinhas sobre curiosidades e fatos relevantes de cada edição. Por exemplo: naquela época, o conceito do politicamente correto ainda não existia. Por isso, o Cascão entrava em latas de lixo, o Nhô Lau dava tiros de sal no Chico Bento etc. Isso não acontece mais em nossas histórias há alguns anos, mas como é uma coleção histórica, mantivemos a fidelidade.

[Zupi] Como aconteceu a evolução dos traços?

Foi um processo natural. No início, os personagens só eram publicados em impressos. Quando viraram desenho animado e brinquedos, foram passando por um processo de tridimensionalização. O personagem vira uma espécie de logotipo e a identificação se consolida. Mas eu não me contento em deixar de criar, inclusive no traço. Por essa razão, uma das nossas novidades para 2008 será uma versão da Mônica em estilo mangá, na qual ela e a turminha estarão na adolescência.

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[Zupi] Você é considerado um dos maiores cartunistas do mercado brasileiro. Quais são as dicas para quem está entrando no mercado agora?

Em primeiro lugar, ter a consciência de que fazer quadrinhos é exercer a profissão de comunicador. Junto com isso, vem uma carga de responsabilidade, pois passar informação para as pessoas é um poder que deve caminhar junto com a ética e a responsabilidade.Os quadrinhos podem influenciar as crianças a crescerem aprendendo sobre solidariedade, ecologia, amor e humor. Podem preparar alguém para a vida nesse mundinho complicado dos adultos. Tendo isso em mente, já é meio caminho andado, pois ajudará na criação de boas histórias. Ser muito observador também é essencial, assim como ter a noção de que nunca se aprendeu o suficiente nesta vida.

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