CLUBE  •  PIXEL SHOW  •  CONFERÊNCIA  •  PROGRAMAÇÃO  •  SKETCH  •  FEIRA

Mario Fontes
São Paulo, SP

Confira mais trabalhos aqui.

image

[Zupi] Qual o prazer de fotografar?
Fotografia a gente faz por que gosta e trabalhos fotográficos a gente faz por que precisa. Tenho o meu portfólio comercial, onde eu levo nas agências de publicidade pra mostrar as coisas que eu já fiz, qual que é o meu estilo de foto, como que eu faço e tal, pra pegar trabalho, pra ganhar dinheiro. É preciso.

Eu fiquei um tempão fazendo publicidade, aí chegou uma hora que as coisas ficam tão massificantes assim, massante.. então dei uma parada e fui viajar, fiquei dois anos viajando. Fui pra Austrália, fiquei um ano lá, e depois fiquei viajando pelo mundo, fui pro Marrocos. Aí foi o período mais legal de fotografar por que eu fotografava pra mim. Aí eu inventei uma história, fui fazer um trabalho, aí fiz um conjunto de imagens que tinham fundamento pelo que eu queria dizer, eu quero passar uma idéia com aquilo. Fiz um trabalho pessoal que eu vou expor na Pinacoteca no final do ano. Isso é a coisa mais gostosa da fotografia, quando você vai atrás de um trabalho ou às vezes, sei lá, tem alguns trabalhos super legais, mesmo na publicidade você se diverte, você acha bonito, se fica bom, você tem uma mídia boa que circula bastante nas revistas ou em outdoor ou ganha prêmio ou sei lá, isso também dá prazer. E você também contribui com idéias.

E um trabalho que eu gosto muito de fazer é jornalismo. Eu tenho essa formação: o lado publicitário e uma coisa bem jornalística. Uma das fotos para publicidade que eu fiz com cara de jornalismo foi montada. A gente fez, contratou os modelos para fazer anúncio de jóias, para um catálogo. Mas você não percebe direto que é um catálogo de jóias, quando o cliente recebe pronto, na casa dele, aí sim saca que é, mas não ta na cara, não é foto das jóias direto. Tem um tom de paparazo, os caras tão na festa, chega o paparazo e tum, faz uma foto da moçada se divertindo.

[Zupi] Qual é a sua formação universitária?

Sou desenhista industrial.

[Zupi] E como foi acabar na profissão de fotografo? Fotografia sempre foi paixão?

Eu comecei com fotografia com 22 anos. Perdi dois anos… Fiquei trabalhando como designer dois anos, dos 20 aos 22 eu fiquei lá… Não como designer, designer na época no Brasil era muito devagar, a coisa não rolava.

O meu avó era fotógrafo e eu convivi com isso sempre, desde pequeno. E na faculdade, também, de Desenho Industrial, eu tinha aula de fotografia, aí eu comecei a aprender a técnica, a aprender e aprender, e aí comecei a fotografar, porque aí eu podia revelar os filmes, aí eu podia mexer bastante, brincar mais com isso. Tinha como viabilizar. Então eu fotografava no fim de semana, segunda-feira eu tava lá na aula já revelando os filmes.

Eu gosto de design bastante. Na faculdade eu trabalhava também, mas aí eu fui pra uma área chata de design, eu fazia desenho técnico, e aí foi uma coisa que me encheu o saco, eu não curtia, aí eu acabei saindo e comecei a ser estagiário lá no estúdio Abril e de lá fui atrás de fotografia.

A formação verdadeira foi trabalhando como assistente, aí que conta. Eu fui trabalhar no estúdio Abril, aí eu fotografava todos os tipos de coisa, lá aprendi a fazer assistência para fotografar Casa Cláudia, Quatro Rodas, Arquitetura e Construção, Playboy, todas as revistas da Abril fotografava-se lá e aí você vai aprendendo a ver como faz, daí eu saí de lá, fui trabalhar com o Bob (Wolffenson), era assistente dele, fiquei dois anos trabalhando com ele, saí e quis morar na Europa, fiquei um ano lá, trabalhando lá.
Agora, você aprende quando você é assistente na rua ou estudando fora daqui, ou fazendo os dois também. É meio auto-didata, a gente aqui no Brasil é tudo por aí, meio auto-didata.

image

[Zupi] Como está o mercado de fotografia?

O mercado é grande, tem bastante cliente, bastante gente precisando de foto, só que ta recessivo, a economia está recessiva, então a primeira coisa que sente é a publicidade, que para. A primeira coisa que cortam é investimento em publicidade. Então você vê pouca foto em jornal, vê pouca foto, anúncio em revista, sei lá, a Veja é um termômetro de publicidade. Quando o negócio ta pegando fogo, tem bastante anúncio, bastante coisa, quando não está, ta fina.

Sei lá, você vai nas revistas, nos jornais, os times de fotógrafos foram reduzidos. A revista Veja costumava ter um fotógrafo em cada lugar, um no senado, um na câmara… Cada um cobria um lugar. Agora com essa crise eles tiraram todos e fica um fotógrafo em São Paulo, um em Brasília e um no Rio. Ou então eles compram fotos de jornal, por que os jornais cobrem todos os eventos e aí acaba sendo mais econômico pra eles comprar uma foto pronta por trinta reais, cinqüenta, do que ter um empregado que você tem que pagar, tem os direitos, sindicato, tendo empregado você paga imposto e tudo. Então as pessoas querem ao máximo se livrar do custo, e esse também é o meu caso.

No ano passado eu tinha o meu estúdio com o Bob Wolffenson e com mais um fotógrafo, daí veio essa crise no final do ano, começou este ano ficou um custo fixo enorme lá, então eu falei vamos parar, eu só vou usar aqui quando eu tiver trabalho de estúdio, então quando tiver trabalho eu vou e pago, quando não tenho não gasto. Então ta todo mundo nesse pensamento. Se a revista Veja, do grupo Abril, super poderosa, faz assim, por que eu não vou fazer, eu pessoa física?

O período que foi legal foi no ano de 2000, pelo que me falaram, pois eu não estava aqui, eu tava viajando. Que foi o boom assim com o negócio da Internet, que tinha um monte de trabalhos, um monte de coisas legais para fazer. Agora não ta numa época legal, então todo mundo com o gasto cortado. A Folha de S. Paulo tinha 22 fotógrafos hoje tem 12, o Estadão também cortou um monte, as revistas todas cortaram. Tudo é pela metade, por um terço do que era, tudo é nivelado por baixo e o que menos importa é a qualidade.

[Zupi] Isso se estende ao “mundo da moda”?

Tem gente muito boa trabalhando com fotografia no Brasil, o mercado de moda no Brasil se desenvolveu muito nos últimos dez anos, ela não era nada, era muito fraquinho, tinha os desfiles lá no Morumbi Fashion, quando começou aquilo era fraquíssimo. Na época, eu trabalhava na Folha, tinha uma página na Ilustrada junto com a Lílian Pace, uma página na Ilustrada toda sexta feira saia a última página era uma página de moda. Então a gente ia pra rua e fazia moda todo fim de semana e depois foi cavando, foi cavando, a gente começou a fotografar desfile, eu ia nos desfiles não tinha nenhum fotografo lá fotografando o desfile, não tinha nem quase desfile, só tinha da Zoomp, das grandes marcas assim, da Fórum.

Agora você que tem um monte de fotógrafo, tem um monte de gente ligada a isso, eles fazem lá no prédio da Bienal que é enorme, o que tem de gente lá, a estrutura toda que agregou, as marcas, todos os estilistas, todos os profissionais que trabalham no meio, quer dizer a coisa cresceu e ficou gigante. Movimenta muita grana e tem um monte de gente boa que faz, mas a gente no Brasil fica agora tudo amarrado, tem um monte gente boa e pouquíssimo trabalho. Ta tudo amarrado. Não tem dinheiro, o dinheiro parece que sumiu, todo mundo trabalha super pouco e sei lá, ta um período super ruim.

[Zupi] E que tipos de trabalho você tem feito?

Publicidade; cuidando da minha exposição, para dar andamento a ela, patrocinadores, essas coisas todas; e fazendo revistas, editorial, moda… Esta época está com pouco volume de trabalho. Tá tudo devagar, parece que está tudo ligado no menos.

A vida de fotografo por esse lado é difícil. É uma montanha russa. Aí sei lá, têm uma porrada de revistas, um monte de coisas para fotografar, mas vai assim, vai e volta. Eu fotografo pra Veja, pra Vogue, pra Casa Vogue, pra revista da Pegeo, pra revista da Volgswagem, pra revista da MTV e por aí vai.

image

[Zupi] São as pessoas que te procuram ou você é quem procura por elas?

As pessoas me procuram e eu procuro por elas também quando dá essas baixas assim. Quando você ta trabalhando, você ta lá, ta que nem louco fotografando, aí foi, entregou os trabalhos. Acabou, olhou assim, acalmou… Pega os trabalhos que fez, coloca no portfólio e vai atrás de revista de novo.

[Zupi] Qual a diferença que você notou entre a visão brasileira em relação à sua arte e a do resto do mundo?

Fora do Brasil, na Austrália, por exemplo, tem dinheiro pra fazer as coisas, livros de arte. Então as coisas são levadas à sério, eles dão dinheiro e isso dá dinheiro, dá retorno, as pessoas fazem, imprimem bem, tudo é muito bem feito, tem grandes profissionais.

Aqui no Brasil também tem profissional, só que aqui, por ser um país pobre, de Terceiro Mundo, a gente sofre com a qualidade das coisas, a gente não têm tanto veículo pra fazer, para imprimir. E tem pouca gente pra comprar, pouca gente pra querer investir pra fazer um negócio de qualidade.

[Zupi] Mas foto “fofoca” tem saída… O que falta para alcançarmos um patamar mais elevado de qualidade?

A Caras, por exemplo, é uma espécie de cópia da Ola! e fora do Brasil também interessa fofoca, mas sei lá, os países de Primeiro Mundo já passaram por essas dificuldades que a gente ta passando e eles são os donos da bola e eles fazem as coisas super bem feitas e também dá pra sentir que tem mais estudo nas coisas, tem mais criatividade, o produto final pelo menos é super legal e a gente ta sempre olhando o que eles tão fazendo, a gente sempre segue mais ou menos o que eles estão fazendo, sempre vai buscar, vai olhar, como se fosse um irmão mais velho que você vai consultar.

O brasileiro é super criativo, faz coisas super legais, mas falta um monte de coisa de preparação, para ter escola de fotografia aqui, pro Senac existir, demorou né? Para ter um curso legal de fotografia. Aqui não tem faculdade de fotografia até hoje. Tem curso profissionalizante, tem curso técnico, quer dizer, até hoje não tem isso aqui. Se você for pra Londres tem faculdade de cinco anos, na Austrália tem também.

Eu fiz uns cursos de fotografia na Austrália, me associei a uma escola lá, eu ia revelar meus filmes, eu fiz curso de Photoshop, eu fui atrás de coisas para enriquecer, né. Aprender mais, ampliar, e aí como eu tava querendo ficar próximo à fotografia, então decidir ficar naquele centro, nessa escola de fotografia tinham exposições de jovens talentos, então é gente que pesquisa, gente que faz, então eles investem dinheiro na moçada, eles fazem vários concursos e eles tem galerias pra caramba, pra todo mundo expor. Eles ajudam, tem muito incentivo, é mais patrocinado. Essa nossa falta de apoio depois reflete lá na frente, quando o cara entra num jornal ele não sabe nem direito o que é fotografia e nem valoriza e não sabe muito.

[Zupi] Falando em tecnologia, Photoshop, quais as diferenças entre a foto digital e o método tradicional de fotografar?

Eu li uma entrevista com o Christiano Mascaro no Photosite e ele falou na entrevista sobre isso, a sensação de esperar um filme revelar, você ir no laboratório ver os contatos é uma sensação única, que a digital não dá. Na digital você vai ver o resultado na hora. O digital funciona muito bem já pra algumas coisas legais, assim, pra jornal, que não tem que ter esse glamour, jornal tem que ser rápido, paulera. Tem muito uso específico e que funciona muito bem a digital. Mas eu adoro cromo ainda, usar o cromo, tem uma cor. É legal ter os dois tipos de câmera. E acho legal do digital que você pode manipular.

image

[Zupi] De onde vem a sua inspiração para fotos artísticas? Você acha que redescobriu viajando um lado da fotografia que havia deixado de lado por causa de trabalho, stress?

Quando eu fui viajar eu falei bom, vai ser um ano sabático que eu vou tirar, então eu quero tirar alguma coisa daqui, tem que sair algum material daqui, eu quero fotografar. Uma coisa que me inspira muito é ir a lugares novos, conhecer lugares novos, na hora me dá vontade de fotografar, de descobrir o lugar fotograficamente.

Então, sei lá, em Sydney tinha aula de manhã, de inglês, cinco horas de aula… Chegava à uma da tarde, almoçava e ia embora com o equipamento nas costas, ia conhecer um bairro, um lugar e era todo dia expedição fotográfica para algum lugar para descobrir e fotografar. Foi um ano assim.Eu ia sozinho fotografar. O que me inspirava era isso, era descobrir os lugares, mas aí começou a ficar muito solto, por que eu ia fotografar coisas interessantes.

Falei, bom eu tenho que arrumar um fio condutor nisso aqui, o por quê, qual que é. Aí eu comecei a enxergar em Sydney dois elementos que eu sempre via e não entendia muito: a coisa da cidade, de morar na cidade e morar na natureza. Em Sydney tudo é muito assim, é tudo muito bonito, a arquitetura é linda, maravilhosa, fantástica, exuberante e a natureza também, e a natureza faz parte, ta misturada, ta junto com a cidade.

Na Austrália tinha isso, tinha os dois, eu falava: não é possível um lugar assim perfeito, maravilhoso que tem os dois. Aí eu comecei a juntar, então eu vou pegar o melhor de cada um, comecei a juntar os dois, fotografava a natureza e a cidade, comecei a fotografar a arquitetura e fotografar landscape. Comecei de alguma maneira a juntar as fotos que se pareciam, que tinham uma simetria entre elas ou pela geometria ou pela oposição entre elas, um aquário cheio de peixes e um lixo cheio de garrafa. Aí eu juntava as duas fotos e ficava perfeito. Eu falava nossa, é isso! A natureza cria e o homem destrói. Aí eu comecei a fazer esses diálogos, a Ópera House com as formas redondas com am montanhas que eu fotografei na Califórnia, que eram todas redondas, sinuosas também. Aí eu comecei a fazer isso, todo lugar que eu passava, eu ia atrás, daí eu foquei esse negócio pra esse trabalho.

[Zupi] Que conselho você daria aos jovens profissionais, em início de carreira?

O mercado de fotografia não é fácil, é preciso batalhar muito para conseguir o seu espaço, sem parar. E precisa gostar do que se faz… Se for para ganhar dinheiro, desista.

Compartilhe via...

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no pinterest
Pinterest
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn