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48 anos
São Paulo, Brasil

E-mail: citronvache@uol.com.br

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[Zupi] Fale um pouco sobre sua vida profissional desde sua época de estudante?

Precisaria sondar um pouco para por ordem no início da minha vida profissional. Só sei que não foi de um dia pro outro. Eu comecei a estudar engenharia em 81 e não estava pegando, com certeza, o caminho mais adequado para qualquer expressão artística. Mudei meu rumo quando descobri que existia em Paris uma escola técnica de animação. Meu sonho! Antes só achava que a Disney oferecia essa possibilidade de aprender animação tradicional e que era reservado a uma “elite americana” na CALL ART. Eu ilustrava de vez em quando para revistas e para algumas agências de publicidade, e juntando trabalhos pessoais (gostava de fazer histórias em quadrinhos nessa época) consegui prestar o concurso. Foi a partir desse momento que eu orientei meu trabalho na animação. Estágio no estúdio Brizzi (atual estúdio Disney em Paris) e vários filmes institucionais.

Trabalhei em seguida como animador freelancer em vários estúdios com uma longa estadia no estúdio Ellipse em Paris com, entre outras, a série animada TINTIN, pela qual eu tive minha primeira experiência de supervisor de animação na Espanha e na Coréia do Sul. Morei em Xangai dois anos, onde eu supervisionei uma série francesa, “Baby follies”, e uma série americana, “Little mouse on the prairie”.

Mudei para o Brasil em 95, onde descobri o filme publicitário. Trabalhei por seis anos na produtora Trattoria di Frame como animador storyboarder e diretor de arte. Aos poucos, fui me abrindo às outras produtoras.

Principais filmes: Sidnelson, da Rainha; Raid Mosquitos e baratas; Fabercastell; Tigre Kellogg’s; e Abertura do programa “Erótica”.

Voltei em 98 pra Coréia para supervisionar uma nova série de animação francesa (“O marsupilami”) e passei 2001-2002 de novo em Seul para supervisionar a animação de um longa metragem francês (“As crianças da chuva”), que deveria estrear no Brasil, no ano que vem.

Voltando pro Brasil, abri meu próprio estúdio de grafismo e animação, em São Paulo, o CITRON VACHE, com um amigo francês. E comecei a trabalhar com shooting board de longa metragem live action. Fiz “Acquaria”, de Flávia Moraes, filme com Sandy e Júnior. “Jogos subterrâneos” de Roberto Gervitz(em montagem) e devo fazer o próximo filme de Bruno Barretto.

Depois de animação e shooting board, minha terceira atividade artística é ilustração de livro infantil. Ilustrei meu primeiro livro infantil aqui no Brasil, “Um nó na cabeça”, e fiz vários livros infanto-juvenis em seguida. Recentemente ilustrei um livro de Ana Maria Machado, “De fora da arca”.

[Zupi] Como você começou a se “transformar” em um artista?

Esse termo de artista sempre me incomodou muito. Retorno a pergunta: a partir de quando a gente pode ser considerado como artista ? Quando a gente expressa sua criatividade? Quando somos reconhecidos pelos outros? Ou quando a gente usa a criatividade num fim profissional?
Não sei muito bem responder, só sei que sempre desenhei muito antes de decidir consagrar minha vida à animação e ilustração.

[Zupi] Porque você decidiu abrir a sua própria empresa? E como você prospecta seus clientes?

Tive vários motivos decisivos. Por ter trabalhado muito tempo com as mesmas produtoras, me veio uma vontade de voar com minhas próprias asas e reduzir o número de intermediários entre o cliente e meu trabalho de criação.

Outro motivo foi, depois de ter trabalhado esses anos todos na Ásia, ter visto como a produção industrial de desenho animado faz passar muito acima a produtividade em detrimento da qualidade. Deu-me uma vontade irresistível de fazer animação de qualidade e desenvolver projetos pessoais.
A terceira razão é ter encontrado meu atual sócio, Sylvain Barré, diretor de arte, designer e animador, que dividia as mesmas paixões e objetivos.

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[Zupi] Qual o principal atrativo em seu trabalho?

Sempre gostei de pensar como contar histórias e como dar a uma história banal uma leitura interessante.
Que seja no livro infantil através da relação imagem/texto como no storyboard, como decuplar em planos um roteiro. Isso me diverte muito.

Eu acho a linguagem cinematográfica mágica. Como fazer o espectador esquecer de comer pipoca, e como fazer rir ou chorar com essa ilusão de vida que é a animação.

[Zupi] Fale sobre o seu estilo de fazer ilustração.

Meu trabalho de ilustração evoluiu muito com os anos. Com 20 anos de idade eu gostava fazer ilustrações muito rebuscadas com bico de pena e lente para os detalhes. Fiz muitos desenhos técnicos e anatômicos.

A animação soltou consideravelmente meu estilo. Por ter que “rufferar” muito e fazer muitos desenhos num prazo curto, eu simplifiquei muito meu traço depois disso. Traço espontâneo, tremendo, aquarela etc. Hoje eu sou muito mais versátil nos temas, assim como nas técnicas usadas. Voltei a detalhar mais sem deixar a espontaneidade do traço.

Agora eu uso cada vez mais o computador para finalizar ou, vamos dizer, colorir. Mas sempre com certa reticência e vergonha por querer me deixar mais preguiçoso e querer me tirar o prazer do contato com papel. Meu compromisso nisso é de usar o computador parcialmente e enganar quem vê o resultado e não saber com que técnica foi feito.

Eu gosto muito de viajar e desenhar na rua, ao vivo, ambientes, arquitetura e gente. Eu fiz uma exposição no SESC de desenhos do centro de São Paulo.

[Zupi] O que te inspira?

Oh…Vasta questão. Nunca pensei que ia responder um dia a tal pergunta. Posso falar de influências artísticas, mas de uma maneira mais genérica, posso dizer que tudo me inspira. Como sou muito eclético, eu me recuso a me limitar a um estilo. Tudo é uma fonte de inspiração. Seria mais fácil dizer talvez o que realmente não me inspira: mangas, super heróis e turma da Mônica. Não me identifico nada com esses universos!

[Zupi] E quem são os artistas ou profissionais que inspiraram o seu trabalho?

Com os anos que passam, estou acumulando uma baita lista de ilustradores ou artistas nas minhas veias.

Na ilustração eu devo muito a Gustave Dore, pelo trabalho de composição e de luz. Duhrer, Leonardo da Vinci pela anatomia. De ilustradores mais modernos, John A. Rowe, ilustrador infantil inglês. Lisbeth Zwerger, Boiry, Gabrielle Vincent.

História em quadrinho: Nicolas de Crecy que desenvolveu o universo de “Les triplettes de Belleville”; Loisel; Asterix e Tintin.

Animação: incontestavelmente, a Disney me inspirou muito, como a todo animador, mas o estilo acético me cansa um pouco. Frederik Back e Alexander Petrov me tocam muito mais. Eu gosto muito de filmes autorais com traço solto, vibrante como Paul Drissen

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[Zupi] Você acha que a ilustração brasileira tem um estilo único?

Desde que eu cheguei no Brasil, eu tive oportunidade de ver muitos portfolios de ilustradores brasileiros e fiquei um pouco assustado de ver que os estilos se resumiam muito a dois estilos em 90% dos casos, duas influências grandes: Mônica e Marvel.

O Brasil não tem tradição de livro infantil como na Europa. E Maurício de Souza inundou o mercado com seu universo totalmente ultrapassado graficamente, mas que continua fazendo sucesso hoje só porque ele não deixa, nas bancas, espaço a outros estilos. A não ser pelo Ziraldo, para mim é tudo um estilo só. E fico revoltado quanto a televisão se delega a manter vivo esse universo achando que não tem outro valor seguro para atrair as crianças no Brasil. Criança gosta, para que mudar?

Para adolescente, já pula para heróis americanos ou Mister Universe misturados com mangas japoneses. Portanto, a ilustração de livros infantil e infanto-juvenis está começando a crescer em paralelo (digo em paralelo, porque infelizmente não se encontra nas bancas) e deixa descobrir novos talentos que tentam fugir desses estilos e dar uma outra cor à ilustração. Internet é a abertura sobre o mundo, no Brasil está dando um impulso enorme à criatividade e à uma preocupação com a qualidade.

[Zupi] Você acha que é necessário estudar para se tornar um bom ilustrador?

Não acho que seja uma necessidade, a partir do momento que a gente fala de ilustração. Um desenho de criança pode fazer uma boa ilustração pela espontaneidade da linha e o imaginário sem limite que ela tem. E sabemos por saber, atingir um público basta audácia e sensibilidade. Uma linha, uma curva bem controlada e manchas descontroladas podem dar resultado a boas ilustrações.

Se a questão é saber se precisa aprender a desenhar para ser um bom ilustrador, diria não. Agora, enriquecer sua cultura visual desenhando um pouco de tudo, desenho acadêmico como modelo vivo, anatomia, proporções dos objetos, estudar luz e sombra, perspectiva, composição no quadro, estudar as cores e a interação entre elas, testar as ferramentas e pesquisar técnicas, isso para mim é essencial para enriquecer o trabalho do ilustrador, dando um impulso a seu imaginário. São idéias que eu sempre defendo e recomendo. Picasso dizia: eu levei 40 anos para aprender a desenhar como uma criança.

[Zupi] Algum comentário para finalizar?

Sim, respirar fundo e não ter medo de jogar muito papel fora ou delatar no computador.

Finalizar um desenho é a grande angústia do ilustrador. O primeiro traço espontâneo não aceita facilmente uma reprodução finalizada sem deixar de perder o brilho, que nem reproduzir um desenho ou uma imagem qualquer com papel vegetal. Difícil acertar.

 

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