Guto Lacaz

Guto Lacaz
São Paulo, SP

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[Zupi] Para começar, fale um pouco sobre a sua formação acadêmica.

Antes de me formar em arquitetura, em 1974, eu me formei em Eletrônica Industrial, sou técnico em eletrônica. Na verdade eu sempre gostei de desenhar e de ciências. Desde criança os meus amigos ou desenhavam bem ou tinham uns “laboratórios”. Então eu fui olhando para esses dois lados.

Eu fiz um ginásio que tinha bastante ciências e na mesma escola tinha os cursos técnicos. Então eu fiz, mas era um curso muito difícil, muita matemática… Eu achava que eu ia ficar só montando rádio e desmontando, e não era, eu vivia encrencado. E aí eu peguei a parte que me interessava e eu percebi que eu não ia conseguir competir com os japoneses da classe.

Quando chegou no quarto ano, eu vi que aquilo não ia dar certo e aí me deu uma luz, e eu falei: ah, então vai pro lado do desenho. Aí optei por arquitetura e foi uma beleza. Isso abriu muito a minha cabeça no sentido do que eu poderia fazer em criação. Fiz uma faculdade em que eu aprendi cinema, música, fotografia, desenho de edificação, artes plásticas, então eu tive um leque de opções do que fazer com idéias, muito generoso.

[Zupi] Como foi esse caminho entre a arquitetura e os rumos da sua carreira profissional como designer?

Eu saí da faculdade com muitas ambições. Eu poderia fazer muitas coisas, ou eu ia projetar uma casa, ou eu ia fazer um livro, ou ia desenhar mobiliário… Eu saí com a cabeça meio aberta, assim meio sambando conforme o mercado ia me oferecendo oportunidades e aí a que mais deu certo foi nessa área do design gráfico, que eu já gostava, já tinha feito meu trabalho de graduação em ilustração e aí eu fui conhecendo…

Conheci o Mario Cafiero, o Ricardo Van Steen, o Farah, uma turma que estava como eu, procurando. Gostava de gráfica, mas estava começando a cativar clientes. Aí um grudou no outro e a gente se formou na profissão entre amigos mesmo. Não havia escola de design naquela época, só havia uma no Rio, e os gráficos eram ou autodidatas ou vinham da propaganda. Eu vinha da faculdade de arquitetura, então eu tive uma iniciação na escola, mas eu me formei mesmo no mercado, observando.

Eu me lembro do Van Steen mostrando uma fonte, o Farah mostrava outra, então cada um olhava pra um lado. Um era super construtor, o outro rasgava, enrolava… Assim, raciocínios diferentes, aí eu fui me encantando e fui aprendendo a fazer com os amigos e com os meus erros.

Nem chamava design naquela época, esse é um termo bem recente, a ADG que inventou, a gente se dizia artista gráfico. A gente dizia eu faço artes gráficas ou comunicação visual ou programação visual. Aí quando fundou a ADG, há uns dez anos atrás, os colegas se reuniram e quiseram usar um termo comum e aí o pessoal sugeriu usar designer, que é um termo internacional que está sendo usado, tanto pra objeto quanto pra gráfico.

[Zupi] Você estava falando sobre a experiência como base da sua formação e aí nós caímos na questão do momento: é necessário ser formado, seja em desenho industrial ou cursos relativos, para ser um designer?

Eu não acho que é necessário, mas é bom. Eu acredito nos talentos dos autodidatas, acho que a área das artes ainda é uma área que se a pessoa tiver talento e for empreendedor, conseguir conquistar mercado, se ela conseguir fazer isso sozinha, não precisa da escola.

O Ricardo Van Steen não precisou da escola, ele começou a ter solicitações de trabalho antes de entrar na faculdade. Aí se a meta da faculdade era pra conseguir mercado, e ele já tinha, ele falou não vou perder meu tempo na escola.

A escola é um organismo interessante, mas é muito arrastado. Tem gente que tem pressa e fala não vou ficar ou não interessa o curso. E eu, por exemplo, sou artista plástico, mas não estudei artes plásticas, cai em artes plásticas por acidente e falei opa, quero ficar aqui. Então a área das artes ainda é uma que permite que você seja independente, não se deve deixar de estudar, de observar os colegas, se comparando, mas fazer uma
escola eu acho que não necessariamente, apesar de ser bom que o designer faça.

Eu não fiz, o meu aprendizado foi empírico, mas eu vejo que hoje que se eu pudesse fazer seria legal, por que hoje tem gente que sabe bastante sobre tipografia, sobre computação… Mas agora não dá mais tempo de refazer uma escola inteira, eu gostaria de fazer um curso ou outro.

Sobre a regulamentação da profissão, é outra coisa que não sei responder. Por que às vezes você regulamenta, e aí uma pessoa que não tenha escola, ainda mais num país pobre como o nosso, vai ser impedida de exercer uma profissão.

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[Zupi] Quais as relações que você destacaria entre as artes plásticas e o design?

Na verdade é tudo a mesma coisa, só que o produto final é diferente, a arte gráfica vai impressa no papel. Você pensa do mesmo jeito quando acontece uma encomenda para fazer uma lata e para fazer uma marca. Você pensa qual é o problema. O problema é desenhar uma marca para esse nome aqui, então eu preciso fazer uma confecção bonita, que procure representar o produto, que tenha boa leitura e tal. Já aqui, eu preciso fazer uma lata que tem que ter uma altura, um volume. Então você recebe problemas e vai ter que disciplinar a sua cabeça para resolver aquilo da melhor forma.

Por esse lado a minha escola foi boa, por que tanto para você fazer uma cidade, um prédio, uma colher de café, uma marca, uma mesa, você vai ter que fazer um projeto, que é ordenar as idéias com bastante rigor para que aquele problema que você criou ou que foi apresentado tenha uma solução, a melhor possível que você conseguir no tempo que te foi dado com o conhecimento que você tem.

[Zupi] Existe uma fórmula para resolver os problemas que você mencionou?

Eu acredito que na verdade o que importante é ter clareza do problema, depois concentração em busca de uma idéia. Aí a solução aparece clara, por que a idéia fica materializada. Uma grande porcentagem você resolve o problema, tem alguns que você trava, que você não consegue resolver, mas é um número pequeno, desde que você se concentre, você acaba resolvendo.

Alguns você não resolve por que ou você não soube fazer as perguntas certas pro cliente ou às vezes você é novo na profissão, então fica difícil resolver. Mas depois de uns dez anos, assim, você meio aprende uma fórmula e fica mais fácil resolver os problemas do que no começo.

Eu travei em muitos trabalhos. Quando eu comecei eu não sabia como fazer e as pessoas foram me encomendando coisas e eu não sabia fazer. Aí eu ligava pra um amigo meu, perguntava como é que faz. Eu não sabia o que era fotolito, nunca tinha entrado em uma gráfica. Eu fui fazendo e fazendo, e aí eu fui aprendendo.

[Zupi] Alguma escorregada grave nesse tempo de aprendizagem?

Eu já fiz cartão de visita com nome errado. O homem chamava-se Edison e eu não perguntei pra ele como escrevia o nome. Eu coloquei “Edson” e fiz 400 cartões, aí ele ligava pra mim: “mas o nome é com ‘i’, ‘Edison’”. Aí eu tive que ir na gráfica e pagar, e eu paguei muito caro, fora a vergonha.

Agora eu não faço nada sem passar por um revisor e se o cliente não aprovar, então eu mando as artes e peço para o cliente ler todas as informações e assinar a prova. Sabe, você vai tomando mais cuidados. Isso foi uma coisa que eu nunca aprendi, eu fui aprender isso fazendo, ninguém me falou olha, toma cuidado antes de imprimir alguma coisa, conversa com o cliente. Então eu ia fazendo, era meio uma irresponsabilidade poética. Ah, eu acho que é assim, então eu vou fazer. E quebrava a cara.

Já peguei cromo, e como o cromo é uma transparência, se você não conhece o original, você não sabe bem de que lado é aquilo. Eu fiz uma ampliação enorme ao contrário, e de artes plásticas, de uma tela do MASP. Quantas vezes eu já vi erros, a Folha de S.Paulo publica coisa ao contrário, quando não publica de ponta cabeça. Aí você vai ver que é um erro até comum, mas quando bate no seu bolso, no seu orgulho. Quer dizer, até era uma coisa que se o fotolito fosse bom, ele deveria detectar ou então alguém poderia me falar, olha esse cromo tá invertido, mas não me falaram, sobrou pra mim.

Você fica super ferido, estraga uma semana, primeiro pelo erro e segundo por ser de artes plásticas, que você deveria raciocinar sobre como é o original, é assim ou é assado? E depois, por que você vai ter que pagar, não tem o que fazer. Você tem que assumir e pedir desculpas.

Eu cometi tantos erros assim… Eu comecei a usar o computador em 89. Antes eu mesmo pegava, começava a digitar e aparecia um monte de erros. Aí, a cada erro desses, eu fui ficando atento para aquele problema. Antes de começar, eu quero que o cliente me envie o texto correto, se estiver manuscrito agora eu quero no Word, tamanho tal, já vem pronto o texto. Então eu fui evitando, vendo, assim, em todo lugar que podia dar errado eu fui tentando fazer uma lista do que é que eu tinha que me prevenir.

E assim que eu fui aprendendo, fui aprendendo de uma forma muito intuitiva, mas eu redobrei a minha atenção, pois cada erro desse me feriu tanto que eu falei agora, de novo, isso aqui não pode acontecer, senão eu sou incompetente. Por que às vezes você fica tão envolvido na solução do problema, na parte artística, que esquece detalhes de produção que você tem que saber, para que aquela solução linda que você fez chegue até o final, mais bonita ainda.

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[Zupi] Você indicaria um passo a passo?

O passo a passo é ter clareza de qual é o problema, você faz perguntas pro cliente do que é, por exemplo, essa marca, onde ele vai usar, se ele gosta de alguma coisa e mostra alguma marca que fez. No caso de gráfica, pergunte se tem alguma cor predileta, quais são as marcas concorrentes, para você não apresentar uma solução que já existe no mercado.

Você precisa ter contato direto com o cliente, isso é uma coisa importante pra mim, eu sou bem artesanal. Mas quase todo mundo pede isso, por que às vezes você é intermediado pelo atendimento de uma agência ou tem uma pessoa no meio, um agente, e aí quase sempre dá errado. Você começa a desenhar, fazer um livre exercício, e a partir daquelas informações você precisa começar a rabiscar mesmo, já com o foco numa solução. Então é escolher uma fonte pra escrever o nome da empresa, algo que seja diferente de tudo o que você já viu.

O legal dessa profissão é que a cada dia você tá fazendo um novo trabalho, embora seja a mesma coisa, você está fazendo marca, você está fazendo uma completamente diferente da anterior e ao mesmo tempo eles têm um espírito comum. Quando você acompanha a trajetória dos colegas você fala, ah, essa marca eu sei quem fez. Mesmo que não esteja o nome do colega, é o estilo.

É bonito isso no desenho, como ele revela o autor, ele tá revelando a empresa, é a marca da empresa, mas ao mesmo tempo é a marca do artista que fez também. E assim vai, em cada solução que você conquista.

[Zupi] Já aconteceu de você olhar para um trabalho seu e não gostar do resultado, não se reconhecer nele?

Olha, em um só eu fui vencido pelo cliente. Ele queria uma coisa e eu queria outra, então eu justifiquei ao máximo a minha solução e ele falou não, eu não quero. Como ele é meu amigo, eu falei: já que é assim então tudo bem, você é quem vai conviver com essa marca, não vou ser eu. E eu já tinha recebido a metade… Mas até hoje eu falo: puxa vida, essa marca tá errada. Se eu um dia for publicar as minhas marcas, eu não vou publicar essa por que ela fere a minha estética, pro meu olho ela está errada.

Sempre tem certos trabalhos que você está fazendo para um cliente, então são os ossos do ofício, você faz. É ótimo quando o que você gosta o cliente gosta também, mas tem horas que acontece, como nesse meu caso, que feriu a minha vaidade. Você fala não, isso aí eu não faria, mas já que ele quer, a marca já tá pronta, eu não vou falar não, procure outro profissional por que isso eu não faço. Sabe, fazer uma desfeita, criar tanto caso por isso aí. Mas essa marca me incomoda, todo dia quando eu acordo eu penso: ai, aquela marca… Mas eu entendo que é um capricho meu. Aí entra o temperamento de cada profissional e como ele lida com isso.

Existem aqueles que fazem só o que o cliente quer. Tem cliente que fala: agora eu quero isso, isso e aquilo, e ele só “passa a cola” e “gruda”. E outros tentam captar o que o cliente quer, precisa e aí chega na hora ele diz, não gosto disso. Isso não me fere. Por exemplo, se eu apresentar uma marca que tem duas cores, preto e vermelho, e o cliente diz: detesto vermelho, pode ser azul? Pode ser azul. Então quando é cor, assim, eu respeito muito o gosto pessoal, por que ele vai conviver com aquela marca, e eu não, eu faço a marca e em geral o cliente acaba fazendo as aplicações futuras. Quando é cor eu acho bárbaro que o cliente dê sugestões por que ele está mostrando que tem sensibilidade e que gosta de tal cor. Aí eu avalio, vejo se com aquela cor a marca continua força.

Mas mesmo quando a marca é aprovada, você continua pensando nela, Você não conta pro cliente, mas você sabe que poderia talvez aumentar o espaço entre letras, então se ele me procurar novamente pra um trabalho vou falar pra ele: se você for reimprimir eu gostaria de fazer uma correção visual . Às vezes você tem a oportunidade de fazer ajustes por que o seu olho vai ficando mais crítico, vai observando coisas que você não conseguia ver anteriormente.

[Zupi] Mudando um pouco o foco, muito se fala sobre os seus trabalhos pessoais, que eles são politizados, outros irônicos. Como você considera essa sua visão de mundo refletida na arte?

Eu acho que eu não faço nada explicitamente, mas como eu trabalho com humor, eu acho que o humor acaba trazendo aspectos, e cada trabalho traz um comentário sobre a sociedade de consumo, sobre a graça de um objeto que as pessoas não tinham visto, então eu acho também que depende muito de quem vê. Às vezes se eu falar não adianta nada, as leituras que as pessoas vão fazer é que vai dar o retorno, ver se aquilo sensibilizou ou se gerou reflexão.

Como eu fiz muitas coisas diferentes, em cada um eu tive um retorno, desde uma pessoa que se emocionou, a outra começou a ver o mundo de outro jeito, que aquilo foi uma abertura conceitual pra ela. Tem também o negativo, ah, você não alcançou o seu objetivo, decepcionou.

Então eu já escutei dos dois lados, elogio e também a facada pelas costas, que é muito desagradável, a gente não quer ouvir isso de jeito nenhum, mas sempre tem. Quando você lança um produto no mercado você espera que todo mundo goste, mas você já considera que alguém não vá gostar e pode até aquilo se voltar contra você de forma agressiva, ainda mais quando é no jornal, que vem escrito, dói mais, fica impresso.

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[Zupi] No caso das suas ilustrações publicadas na revista Caros Amigos, você já recebeu alguma crítica mais ácida?

Não, a Caros Amigos tem sido um portal pra mim maravilhoso. Por que eu praticamente não ganho nada lá, mas eu tenho uma página, o que para uma artista é uma coisa boa ter um lugar em que um trabalho seu apareça com ritmo.

Isso me traz presentes como, por exemplo, às vezes eu vou para o Ceará, aí chego lá em Fortaleza e vem duas, três pessoas que dizem assim: ah, a gente acompanha o seu trabalho pela Caros Amigos. Eles não fazem idéia do que eu faço em artes gráficas, em artes plásticas, só vêem aquela página, aquele fragmento da minha vida ali. Aí vai pra, sei lá, Ribeirão Preto, aparece mais um estudante. Nada de massa que vem me arrancar, nada global, mas é engraçado por que é um cara, sabe, acho que é o cara de esquerda da cidade, só ele lê, mas é simpático, né? Você recebe esse retorno.

De vez em quando alguém me escreve, através do e-mail, “ai, eu vi a sua ilustração, o que é que ela quis dizer e tal?”. Aí eu brinco, “se você não me disser o que achou, eu também não falo o que eu quis dizer.

Então é um lugar gostoso e eu lamento não ter mais espaço para os profissionais de ilustração. A gente tem tantos bons ilustradores. Cada revista dessas, Nova, Istoé, Veja podia ter páginas e mais páginas de ilustração. Ilustração bonita, por que em geral elas são de mau gosto, às vezes é o próprio jornalista que ta fazendo a matéria, ele pensa numa ilustração e chama uma pessoa mais para construir aquilo. Então você vê que aquela ilustração não é pensada por um ilustrador, isso aqui o cara inventou na hora e pediu para um ilustrador só desenhar.

[Zupi] Parafraseando Marília Gabriela, Guto Lacaz por Guto Lacaz.

Quem é ele? Eu estou tentando, todo dia eu tento responder. O que eu sou? Eu sou o que o Raul Seixas falava, uma metamorfose ambulante!

Eu não sei responder… Eu acho que eu sou um humorista.

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