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Kako
São Paulo, SP

Confira mais trabalhos aqui.

[Zupi] Como foi participar da HQ Roland Garros? Como rolou a seleção de ilustradores? O que achou do resultado final dessa interação entre brasileiros e franceses?

Foi tudo muito rápido. Num dia fui convidado e no outro a história já estava terminada. Por estar muito ocupado na época, nem deu tempo de perguntar quem estava participando, muito menos de ir até Belo Horizonte para ver a exposição, infelizmente. Estou para receber o catálogo, e a ansiedade é imensa pra ver o material. Tivemos uma notícia muito feliz agora em fevereiro: a história foi selecionada para o 51th Communication Arts Illustration Annual, para mim um dos melhores catálogos que existe sobre o assunto.

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Raisukun

[Zupi] E sobre a adaptação de Dragon: Hound of Honor, como foi o processo de criação? Por que não chegou a ser publicado? Nos conte como foi isso.

Considero este um outro ponto importante em minha vida. Cresci fazendo parte de um pequeno grupo que tinha o sonho de fazer quadrinhos autorais: eu, meu irmão Bruno D’Angelo, o Fábio Moon, o Gabriel Bá e o Peov; desde o início, sempre me considerei o menos “quadrinhista” de todos – acho que pela maneira pela qual queria contar histórias, mais próxima de um livro ilustrado do que de uma HQ, e também o fato de ter investido mais em minha carreira como ilustrador que os outros.

Quando fui convidado para o projeto, topei na hora, pois era uma história fantástica de tema medieval e além disso tinha a Julie Andrews envolvida, autora da história original. Mas a proposta veio muito cedo em minha carreira e de certa maneira ainda não tinha muitos planos certos sobre o que iria fazer. Quando o projeto estava pronto para ser iniciado, depois de todas as negociações e da adaptação do livro para o formato de quadrinhos, havia se passado um bom tempo e eu já estava começando a ser bem requisitado na área de ilustração. Quando parei pra me organizar, vi que não haveria espaço em minha vida, tanto pessoal como profissional, para um projeto daquele tamanho. Havia largado um emprego para começar uma carreira do zero e infelizmente ainda não teria como dedicar seis meses ou mais para apenas desenhar a história e ao mesmo tempo me sustentar; não estava preparado. Era um grande projeto que chegou na época errada, então tomei a decisão de sair antes dele decolar. Infelizmente depois de um tempo ele foi cancelado totalmente.

São decisões que temos que tomar com consciência do todo, pois a realidade te chuta na canela a cada minuto que passa e não dá pra viver só de sonhos. Decidi que se fosse fazer quadrinhos, se fosse realmente dedicar um tempo para contar histórias, que fossem as minhas e da maneira que as vejo e, a partir deste momento, comecei apenas a participar de antologias, exatamente porque estas publicações se caracterizam por histórias curtas e autorais sem tomar muito de meu tempo. É o modelo perfeito para mim, hoje.

[Zupi] Como foi fazer parte do Comic Book Tattoo? Todos os trabalhos foram inspirados nas músicas de Tori Amos. Qual música te inspirou na criação de Marianne?

Este é o segundo projeto deste gênero que participo pela Image Comics, livros que misturam música e quadrinhos. O primeiro foi o Put That Book Back on the Shelf, com histórias inspiradas nas músicas da banda Belle & Sebastian. Em ambos escolhi a musica sem o compromisso com a interpretação original. No caso de Marianne foi porque no estúdio ouvíamos muito o CD Boys for Pele e esta era uma musica que gostava. Nunca havia prestado atenção na letra até perceber que ela fazia muito sentido com a história que havia escrito, que fala sobre a perda de alguém querido, alguém que foi muito cedo. Foi uma estranha sensação essa coincidência, mas ao mesmo tempo muito reconfortante porque tudo se encaixou perfeitamente.

Trabalhar num livro audacioso como esse foi incrível, um projeto com investimento alto comparado ao que há disponível para gastos com antologias, além de ousado no projeto gráfico por causa do tamanho. Aproveitei esta característica do livro e criei uma história onde poderia também ousar graficamente: são imensos 60x30cm de área total por página. Queria algo que fosse mais que apenas uma história, queria algo que mudasse totalmente o andamento da leitura do livro, um momento contemplativo no meio de quadrinhos e balões. E acho que deu certo, muita gente teve esta sensação de parar e apenas ficar olhando as grandes imagens, uma história que trouxe outras histórias, segundo muitos me disseram.

Em 2008 pude ir para a San Diego Comic Con para o lançamento, onde pude conhecer uma grande parte dos outros autores e artistas, além de Rantz Hoseley, o editor que de maneira hercúlea deu vida pro projeto, e claro, a própria Tori Amos. Desde então o livro foi muito bem sucedido, levou tanto o Eisner Awards como o Harvey Awards de melhor antologia. Só tenho boas lembranças dele.

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Marianne

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Dog on Wheels

[Zupi] Qual a vertente da ilustração você mais curte fazer? Como você seleciona os trabalhos que lhe são solicitados?

Não costumo gostar mais de fazer algo do que outro; gosto do equilíbrio entre as áreas, gosto do fato de poder criar para diversos segmentos e cada um tem uma história, um processo criativo, um timing. Por natureza não consigo ficar em uma coisa por muito tempo, vide minha carreira. Hoje faço publicidade, amanhã editorial, semana que vem estampas, e na outra, o que vier, desde que faça sentido e caiba no cronograma. Não sou muito de ficar selecionando trabalhos, sou profissional e estou aqui para atender meus clientes. Claro que existem algumas restrições, não posso aceitar os valores obscenos que têm aparecido no mercado (principalmente editorial) e não faço nada que não esteja de acordo juridicamente. Fora isso, estamos no jogo.

[Zupi] Como você se sente ao ver seu trabalho divulgado fora do país?

Fico feliz por este reconhecimento, pois não é algo fácil. Valeu cada investimento que fiz.

[Zupi] O que você acredita que está faltando para os ilustradores serem mais reconhecidos no Brasil?

Acredito que a profissão de ilustrador tem seu devido reconhecimento entre aqueles com quem temos contato diário, sejam eles clientes, colegas ou admiradores. Se faço um trabalho bem feito, tenho o reconhecimento necessário de quem me interessa. Mas creio que por ser uma profissão que não gera muita exposição na mídia, tem-se esta impressão de que não há reconhecimento, mas pergunto: reconhecimento de quem mais?

Vivemos num pais onde a bunda fala mais alto. A exposição bem trabalhada da retaguarda pode se tornar milionária e essa cultura da busca pela fama se espalhou de forma inconseqüente, tornando-se hoje uma realidade triste. Um reality show triste, melhor dizendo.

O que falta hoje é respeito. E não só com os ilustradores, como com todos os outros profissionais da criação: fotógrafos, redatores, jornalistas, designers.. está todo mundo levando uma rasteira atrás da outra por causa desta mentalidade burra da busca pela fama instantânea. Que fama?

A fama virou a moeda do século 21. Já não bastasse o achatamento excessivo dos valores propostos pelo nosso trabalho, hoje está se enraizando nos meios de comunicação um concursismo servil de más intenções. Os marketeiros descobriram uma fonte milagrosa para seus clientes, uma forma vergonhosa de se tirar vantagem de uma geração zumbi que corre atrás do topo sem se dar conta do tamanho do estrago que isso está causando. O que antes chegava tímido agora é escarrado em nossa cara por empresas que facilmente poderiam garantir um bom pagamento por uma campanha de qualidade.

Profissionais que trabalharam por muito tempo, que tem experiência, conhecimento e talento estão sendo trocados por concursos abertos que prometem “divulgar o trabalho” a troco de nada. Divulgar pra quem, meu querido? Pra dona de casa que viu o comercial na TV? Me diga onde estão os créditos? No hot site da campanha que vai sair do ar logo após o fim do concurso? Quem se lembra dos vencedores dos concursos do ano passado e do ano anterior?

Fiz essa pergunta pra alguns de meus clientes e nenhum deles soube responder; alguns nem sabiam sobre os próprios concursos, quem diria o vencedor. E estão certos em não saber, pois para eles este tipo de concurso não quer dizer qualidade de trabalho ou sequer prova de profissionalismo; estes caras buscam profissionais em que possam confiar no dia-a-dia. Quem trabalha sabe o sufoco que é essa rotina, o pega de uma criação de campanha, a entrega de uma capa que tem que ser feita de uma hora pra outra, o conhecimento necessário pra se criar uma matéria de cunho histórico ou um infográfico da maneira mais clara e criativa possível. Se eu fosse o diretor de uma agência e alguém me mostrasse no currículo que ganhou qualquer um desses concursinhos eu botava pra correr, pois isso pra mim não prova nada.

Não sou totalmente contra concursos. Como disse o Alarcão, existe o “bom grátis” e o “mal grátis”, mas parece que uma geração inteira perdeu a noção disso e é atraída por essa luz como mariposa. Existem SIM concursos e outros tipos de oportunidades de mostrar seu trabalho que tem boas intenções, corretas no regulamento e justas nas premiações, basta tirar dez minutos de seu dia e ler as regras do jogo. Mas se o cara promete o ar que você respira, cai fora por que isso já é teu.

Não podemos dar de graça a única coisa que temos pra vender. Não podemos perder esse tempo, devemos usar cada minuto precioso pra investir em nós mesmo. Não está conseguindo trabalho? Crie projetos pessoais, estude, treine, troque figurinhas. Cada um tem que acreditar no próprio talento, naquilo que te faz criar e ir enfim batalhar pela tua voz sem precisar se vender por pouco. Ou pior, por nada. A última campanha imbecil prometia literalmente ao vencedor 15 minutos de fama em sua chamada e regulamento… e nada mais! Assim, descaradamente! Se continuar assim a único reconhecimento que teremos será o de inadimplentes.

Reconhecimento se ganha trabalhando bem, investindo conscientemente na carreira. Se queres glamour, mostre a bunda na TV.

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Conflicts

[Zupi] Em quais nomes da cena de ilustradores e outros artistas você aposta, vê um diferencial?

Gosto demais dos trabalhos do Zé Otávio Zangirolami, do uso sem medo das cores primárias, do material inusitado como fitas adesivas, dos traços soltos e despretensiosos, quase descompromissados em seus personagens. Acho muito atual e funciona em qualquer área de nosso mercado, além de seus originais terem o potencial de venda, pois eles transcendem sua funcionalidade original, tornando-se obras de arte.

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Bubbles

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Sex

 

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