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Elisa Sassi
São Paulo, Brasil

Confira mais trabalhos aqui.

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[Zupi] Para dar o pontapé inicial, quem é Elisa Sassi segundo a visão da própria?

Eu sou muito. Quando gosto, me apaixono. Quando não gosto, odeio. Quando quero, quero muito. Se consigo, ganho o dia. Se falho, vou para a psicóloga, dói, eu choro. É com essa sensibilidade que eu crio.

[Zupi] Conte um pouco sobre suas atividades profissionais e projetos pessoais.

Sou formada em publicidade e propaganda pela PUC-SP, mas foi por ignorância que escolhi esse curso. Hoje em dia, trocaria fácil, fácil por artes plásticas ou qualquer outra coisa com “artes” no nome. Trabalhei em agência de propaganda por 6 anos. Passei pela Lage’Magy, Age e Famiglia.
Hoje, tenho meu estúdio para freelas de ilustracão e design, uma marca de camisetas (Funka) e me dedico ao máximo para os projetos pessoais (exposicões, quadros, adesivos – coisas que eu realmente amo fazer). Sobre projetos pessoais é mais complicado falar, porque são várias gavetas (ou “folders”) deles. Mas um importante é a possibilidade de fazer uma exposição em São Francisco, nos EUA. Vamos ver.

[Zupi] E como é o seu processo de criação de personagens e trabalhos em geral?

Não tem muito padrão. Às vezes é o rascunho de alguém que me dá uma idéia, uma foto, uma situação, um sentimento. Ou então a inspiração é tão rápida que eu não detecto de onde veio. Muitas vezes vem um desenho inteiro em minha cabeça. Outras vezes, eu começo a rabiscar e vou vendo o que vai formando e as idéias vão chegando durante o processo. Racionalizar o que faço, para mim, é muito difícil.

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[Zupi] Qual é a relação entre os seus projetos pessoais e projetos comerciais? Qual é a influência de um sobre o outro?

Sempre estou tentando colocar a arte na propaganda. Apesar de não ser muito fácil, quando consigo, dá ânimo suficiente pra continuar tentando e querer fazer mais. Esse é o desafio maior. Quando encomendam um quadro ou um adesivo, a criação é mais fácil. Os briefings não existem ou são bem simplificados. A pessoa me procurou porque gostou do que faço, então é só deixar a essência trabalhar. Quando o trabalho é para editoriais ou – principalmente – publicidade, a coisa fica mais restrita, racionalizada e menos natural. Afinal, se me pedem um desenho de um bebê, nem sempre posso colocar um esparadrapozinho com sangue na cabeça dele!

[Zupi] E por que o faria?

O esparadrapo é uma coisa é muito mais sensitiva que racional. Mas tentando racionalizar, gosto muito de misturar climas. Gosto de layout moderno com tipologia antiga. Desenho vetorial em fundo envelhecido. E acho que os meus sanguinhos e machucadinhos também fazem parte dessa preferência particular de misturas. Alguma coisa fofa-fofa com uma rachadura na testa.
Também acredito que faça parte da desmistificação. Sempre escuto que meus desenhos são infantis, fofinhos, inocentes e essas coisas todas. Até são, muitos deles. A maioria, talvez. Mas nunca só isso. O esparadrapo com sanguinho está ali pra lembrar a malandragem por trás da inocência, a malícia por trás da pureza. Acho que qualquer coisa boazinha demais irrita.

[Zupi] Você é declaradamente uma apaixonada por ilustração e pela arte japonesa, influência muito presente em todos os seus trabalhos. Como surgiram essas duas “fixações”?

A ilustração virou uma paixão porque eu sempre fui péssima em exatas. Não me orgulho, mas não sei direito a tabuada. E em arte não tem isso de certo e errado, embora existam pessoas aos montes que agem como se tivesse. Além disso, putz, quando eu consigo fazer com que alguém se emocione olhando o que eu faço, faz tudo valer a pena! Para cada sucesso, eu computo algumas dúzias de frustrações…
O Japão sempre será uma paixão, mas passei por uma fase especialmente nipônica. Lá, eles não têm limites pra criar, têm um domínio de cores, formas e expressões, que é surreal! Claro que não é só lá e não me limito a uma só referência, nem admiro um só estilo. O Japão é uma paixão especial e tudo o que eu mais quero é ir pra lá.

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[Zupi] No Brasil, as pessoas ainda confundem ilustração com caricaturas. Como você explicaria a diferença entre elas?

Elas confundem? Pra mim é tudo ilustração, não é? Em relação ao meu trabalho, posso dizer que elas confundem aquela caricatura clássica que aparece em charge, com a caricatura que eu faço das pessoas. Eu transformo as pessoas em bonequinhos, mantendo suas características mais marcantes. Muitas vezes é só um detalhe. Toda bolinha com um cabelinho moderninho e despontado se transforma na minha amiga Juquinha, por exemplo. A Pondicas, outra amiga, é qualquer coisa que tenha olhos verdes gigantes. O problema é quando desenho alguém e a pessoa reclama “mas minha cabeça não é redonda”. Não, não é, mas isso aqui é a sua essência, não você. Acho que é basicamente isso.

[Zupi] Apesar de ser brasileira, o seu site pessoal está todo em inglês. Por quê?

A intenção é que o site seja internacional, mas não precisa ser pretensioso. Como eu explico lá na primeira página, o computador do meu programador com todos os arquivos editáveis foi roubado e o site sequer ficou completamente finalizado. Os textos em português existem, eles só não tinham sido colocados quando os arquivos se foram. Agora o novo site está sendo feito e lá os textos estarão devidamente escritos nas duas línguas.

[Zupi] Por conta da questão da falta de valorização nacional, você já chegou a pensar em deixar o Brasil para tocar sua carreira em outro país?

Diariamente. Não porque eu acredite que sou boa demais para nosso país, muito pelo contrário. O que mais sinto falta aqui é de aprendizado. Quando se trata de clientes, eles têm muito, muito medo de ousar. Quando falamos de pessoas, estas também esperam que a crítica aprove um artista ou uma arte antes de formarem sua opinião. Desse jeito, fica difícil conseguir espaço pra crescer. Tanto que, quando alguém faz sucesso (e isso acontece em qualquer tipo de arte – música, teatro, cinema), essa pessoa é esgotada.
O Brasil é um país que vive muito da “modinha”. E olha que não precisava, tem espaço pra todo mundo e tem muita gente incrivelmente talentosa neste país. Mas de qualquer maneira conhecer outras culturas, ter contato com outras formas de fazer o que você faz, isso sempre vai ser extremamente valioso e enriquecedor para qualquer pessoa.

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[Zupi] Projetos como intervenções urbanas e cursos para menores carentes podem ser encarados como a solução para a falta de incentivo às expressões artísticas no país?

É muito complicado, no Brasil, chamar qualquer coisa de “solução”. Tanto na questão da arte quanto – mais do que tudo – na da pobreza, o buraco é bem mais embaixo. Nós, aliás, estamos há 500 anos cavando e não paramos de chegar a essa conclusão: de que nosso buraco está sempre mais para baixo ainda. Claro que esse tipo de ação é valiosíssima e que se cada um fizesse sua parte desse jeito estaria tudo melhor: a arte, a pobreza, a poluição, os bons costumes. Mas, para fazer com que isso aconteça, é preciso alterar práticas e pensamentos que estão arraigados demais. Todo projeto bem-intencionado é digno de aplausos e incentivo, por aquelas vidas que consegue mudar. Só que, infelizmente, eles sozinhos não são efetivamente solução. Não digo isso por pessimismo passivo, jogando a toalha e preferindo não fazer nada. De jeito nenhum. É só, de novo, a triste constatação de como o buraco está embaixo.

[Zupi] Para finalizar, qual é o seu conselho para amantes da ilustração que querem fazer da arte uma profissão?

“Usem protetor solar”. Plagiando o famoso filme da DDB, acho que os conselhos são resumos das próprias experiências. E, se cada experiência é única, não faz muito sentido aconselhar. Mesmo porque, a minha está só começando.

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