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Chip Thomas
Estado Unidos

Confira mais trabalhos aqui.

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Publicado na edição especial da revista Zupi sobre arte de rua, o trabalho do norte-americano James “Chip” Thomas seria melhor classificado como intervenção… rural.

Morador da reserva indígena Navajo, localizada no nordeste do Arizona e em partes do Novo México e Utah, o artista é, na verdade, um médico apaixonado por arte e fotografia. Autodidata, realiza intervenções incríveis, espalhando pelas redondezas imagens que, em tamanho ampliado, retratam a cultura local em preto e branco.

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Fixadas em muros, casa e estabelecimentos comerciais, as fotos, longe de agredir a paisagem rústica, acabam tornando-a ainda mais autêntica, mostrando em larga escala a luta de um povo pela manutenção de suas tradições.

Conheça o trabalho desse incrível artista e veja a entrevista feita pela Zupi.

[Zupi] Thomas, onde você vivia antes de se mudar para a Nação Navajo e o que você fazia antes de descobrir a fotografia?

Nasci na Carolina do Norte em 1957. Como você provavelmente sabe, afro-americanos têm raízes nos estados do sul. Embora eu não tivesse irmãos, tinha muitos amiguinhos na rua onde eu morava. Meu pai era um médico e minha mãe foi professora de escola primária durante 40 anos.

Por conta da violência entre alunos de diferentes raças, existente no sistema de escola pública, meus pais acharam que seria melhor para mim frequentar uma escola particular. Eles iam me mandar para uma escola militar, mas no último momento encontramos algo que era a antítese de uma educação militar. Passei três anos em uma escola hippie, de orientação Quaker. Havia somente 24 estudantes em toda a escola; três de nós éramos afro-americanos. No entanto, nós nos dávamos maravilhosamente bem e alguns dos meus melhores amigos hoje são pessoas que conheci nessa escola.

Foi nessa escola aos 12 anos que eu tive o meu primeiro contato com um laboratório fotográfico. Ganhei a minha primeira câmera aos 13 anos e desde então tiro fotos em preto e branco.

Eu sou médico. Fui para a universidade na Carolina do Norte (Wake Forest University). De lá fui para uma escola médica predominantemente africana, chamada Meharry Medical College, fundada em 1800 por escravos libertos.

Completei meu treinamento médico em 1987 e me mudei para a nação Navajo naquele período.

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[Zupi] E por que decidiu se mudar para lá?

Participe de um programa chamado Serviço Nacional de Saúde. Nele, o governo pagava pelos estudos de jovens que quisessem cursar medicina, enfermagem e odontologia e, na conclusão do treinamento, ao invés de devolver esse dinheiro, os estudantes teriam que trabalhar em uma área deficitária de saúde pelo mesmo período de tempo que passaram no curso – no meu caso, quatro anos.

O governo esperava que os bolsistas trabalhassem nessas áreas remotas além do tempo obrigado. Bom, eu estou aqui há quase 24 anos. Vim para cá porque a minha primeira namorada, uma moça com quem cursei a escola médica, veio trabalhar aqui e soube de uma vaga na equipe. Aprecio trabalhar com uma população indígena que ainda segue práticas tradicionais.

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[Zupi] A maioria dos artistas urbanos buscam inspiração nas grandes cidades. Mas você vive em uma zona indígena, onde a arte de rua não é algo comum. O que o motiva a criar sua arte em um lugar com uma cultura tão diferente?

Eu sempre fui interessado por arte de rua, pela cultura hip hop e por graffiti. No início dos anos de 1980 eu fui a Nova York tentar encontrar Afrika Bambaata e sua nação Zulu. Eu e um amigo branco fizemos uma camiseta que dizia “Zulu Nation” na esperança de sermos reconhecidos por seus membros. Isso nunca funcionou, mas durante minha viagem vi várias pessoas dançando break nas esquinas e passei um bom tempo vendo trabalhos do Futura 2000, Keith Haring e Kenny Scharf.

Comecei a fazer graffiti no meio da década de 1980, mas nunca fui muito bom nisso. Quando vim para a reserva Navajo, uma das primeiras coisas que fiz foi “corrigir” um outdoor. Os nativos dos Estados Unidos possuem um dos mais altos índices de diabetes do mundo ocidental: uma em cada quatro pessoas com mais de 45 anos. Isso vem de uma dieta rica em colesterol, açúcar, falta de exercícios e obesidade. Então, quando a Pepsi instalou um outdoor em uma comunidade próxima à minha, no qual estava escrito “Bem-vindo ao mundo da Pepsi”, eu e um amigo fomos até lá e corrigimos a frase para que fosse lido “Bem-vindo ao mundo da diabete”.

Durante a década de 1990 comecei a espalhar algumas provas fotográficas por uma cidade próxima em todos os pontos onde eram fixados anúncios de shows. Ao longo dos anos, as pessoas começaram a coletar as minhas fotos. Esta foi a minha primeira tentativa de fazer arte pública.  Eu era inspirado pelo trabalho de Diego Rivera e Keith Haring. Sempre fui motivado por coisas que aconteciam em áreas urbanas.

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[Zupi] Qual é a reação das pessoas que vivem na reserva quando se deparam com seus trabalhos?

Comecei a fazer esse projeto de arte pública em junho de 2009. Inicialmente, saia à noite, e, honestamente, não tinha a menor idéia do que fazer. À medida que o trabalho que eu colocava ao longo das estradas tornou-se aceito, comecei a fazer instalações durante o dia. As pessoas da reserva começaram a me parar e a falar comigo, e a fazer perguntas sobre como eu fazia aquilo e se eu poderia ir a suas casas e igrejas. Invariavelmente, elas começaram a me agradecer por compartilhar arte e representar a cultura deles de forma tão positiva. Algumas pessoas me deram jóias e outras me convidavam para participar de cerimônias tradicionais como uma forma de agradecimento por realizar este projeto.

[Zupi] Você é um fotógrafo autodidata?

Sim, mas fiz um workshop de uma semana com dois fotógrafos da Agência Magnum Photo que admiro muito: Eugene Richards e James Nachtwey. 

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[Zupi] Como aprendeu a fazer essas intervenções com fotos tão grandes?

Parte da energia que vem do hip-hop, do punk, da cultura do skate e do Tropicalismo é uma atitude “faça você mesmo”. Quando iniciei meus projetos fotográficos, não sabia que a copiadora na qual eu ia não poderia imprimir uma imagem com mais de 90 centímetros de largura. Eu não sabia Photoshop suficientemente bem para saber como ampliar e depois interpolar minhas imagens para manter a resolução. Pequenas coisas, como enrolar as minhas fotos de baixo para cima, para poder desenrolá-las com mais facilidade, de cima para baixo, estendendo-as melhor quando estiver na escada, escapou-me inicialmente.Tive que descobrir muitas coisas por tentativa e erro.

E a cola que eu uso para fixar as imagens nas paredes é feita de modo caseiro, na minha cozinha, a partir de uma mistura de farinha, açúcar e água. Ela é chamada “wheat paste” e é a cola mais antiga da história. Ela foi usada durante centenas de anos.

[Zupi] Existe uma mensagem específica que você queira transmitir através da sua arte?

Amor, tolerância e compreensão.

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[Zupi] Você conhece a arte de rua que vem sendo feita em outros países, como no Brasil?

Passei um período sabático no Brasil, que durou de janeiro a março de 2009. Nesse tempo, conheci artistas de rua e entrei em contato com o incrível trabalho que está sendo feito no país por artistas como Os Gemeos, Herbert Baglione, Limpo, em Salvador, Zezão, Vitché, Titifreak, Alexandre Orion e Gentilza. Eles todos me inspiraram e reacenderam a chama que iniciada na década de 1990, de colocar fotografias em espaços públicos, nas cidades à minha volta. Na verdade, passei três semanas com Limpo, cujo estúdio ficava abaixo do apartamento onde fiquei, em Santo Antonio. Ele e seu grupo de amigos artistas me tocaram profundamente.

Quando voltei dessa viagem, escrevi para JR, convidando-o a fazer um projeto em uma comunidade empobrecida semelhante ao Mulheres são Heroínas, projeto que ele fez no Rio de janeiro e em Kibera, no Quênia. Nunca tive resposta dele – e estou contente, pois isso me impulsionou a começar a ver nessas áreas como ele veria – a tentar identificar nelas telas em branco, por assim dizer.

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[Zupi] Você pretende viver junto à nação Navajo por muito tempo? Como um artista, pretende se mudar para uma grande cidade, no futuro?

Eu vivo há 23 anos na nação Navajo. Sinceramente, este é um dos lugares mais belos da parte sudoeste dos Estados Unidos. Eu tenho um filho de 13 anos que é metade Navajo. Pretendo ficar aqui até ele completar 18 anos; depois, vamos ver para onde eu acabo indo. Um dos motivos que me levou a passar um período sabático no Brasil foi para ver se ele seria um lugar onde eu poderia viver. E é.

[Zupi] Alguma mensagem final?

Nos últimos cinco anos eu tenho estudado pandeiro; e tenho ido muito bem. No entanto, gostaria de poder dizer o mesmo em relação à minha capacidade de falar português!

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