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Carlos Fernando Faria Costa
Rio de Janeiro, RJ

site
https://www.hungryfordesign.com
https://www.brasilinspired.com
https://www.lardandjoy.com

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[Zupi] O profissional Nando Costa é reconhecidamente um dos mais importantes nomes do design do Brasil e do Mundo atualmente. Quem é Nando Costa segundo você mesmo?

Não acho que isso seja totalmente verdade, mas obrigado. Para falar a verdade, acho que tenho trabalhado tanto nos últimos anos que quase sinto que perdi um pouco da minha identidade. Parece até estranho, mas é algo importante para mim e que estou tentando mudar. Felizmente tenho a minha esposa, que me acompanha nas minhas longas jornadas de trabalho. Sem ela estaria realmente perdido.

[Zupi] Conte um pouco sobre suas raízes artísticas e os rumos de sua carreira.

Desde pequeno sempre desenhei e pintei muito. Minha mãe era escultora e por isso também despertei um pequeno interesse nesta área, o que me rendeu algumas experiências interessantes com projetos tridimensionais. Por três anos também estudei na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Foi uma fase de boas amizades e muita inspiração.

Na época em que tive que escolher minha profissão, um dos meus irmãos mais velhos estava cursando Design Gráfico e foi isso que abriu meus olhos pra esta profissão nova. Logo quando entrei para a faculdade, tive a sorte de conseguir um estágio em uma pequena agência de design, que depois me contratou. Fiquei lá por dois anos e depois larguei a faculdade e o emprego para me mudar pros Estados Unidos para trabalhar na mesma área.

Já essa parte da história imagino que não seja muito nova pra vocês, mas, simplificando, trabalhei em muitos lugares, mudando de uma cidade para a outra e também de uma área de design para a outra. Impressos para web, para impressos novamente e web para depois ir para animação. Foi então que acabei por me mudar novamente para o Brasil, onde criei a Nakd juntamente com minha esposa e um sócio dos EUA. É onde termina a história. No momento estamos com outros planos, mas isso tudo ainda está um pouco indefinido.

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[Zupi] Você é um designer do tipo “multimídia”. A que se deve isso?

Esta sua pergunta é uma grande coincidência, porque estou novamente me mudando para os Estados Unidos para trabalhar como Diretor de Criação do departamento de multimídia de uma agência de propaganda. Acho que isso tudo vem do fato de eu não ter ficado satisfeito de trabalhar somente com impressos, já no início da minha carreira. Depois de dois anos aprendendo o básico desta área, eu imediatamente pulei pra cena de design para web, que pra mim ainda é a mais interessante.

[Zupi] Quando você percebeu a sua inclinação para o design e a animação?

Para o design simplesmente eu cheguei à conclusão de que esta era a minha profissão quando percebi que trabalhando somente como artista, pintando e fazendo esculturas eu provavelmente morreria de fome. Acho que o design gráfico foi não só uma solução para o problema, mas também uma escolha ainda mais feliz do que simplesmente artes. Acho a comunidade de artistas muito fechada, a interatividade que tenho com outros designers tem sempre sido muito importante pro meu desenvolvimento como um profissional.

Já em relação à animação, eu comecei a me interessar nesta área depois que iniciei o uso do Flash 3, há alguns anos atrás, como ferramenta. Depois disso After Effects tem sido o que uso mais rotineiramente pra realizar meus projetos.

[Zupi] Em que momento você decidiu deixar o Brasil para seguir sua carreira profissional?

Eu havia ganho uma bolsa de estudos para fazer faculdade nos Estados Unidos, na Savannah College of Art and Design. Por diversas razões pessoais acabei por decidir ficar no Brasil e cursar Design Gráfico na Univercidade – Rio de Janeiro.

Depois de três anos de estudo e dois de trabalho consecutivos, eu percebi que precisava me aprofundar mais nas técnicas de trabalho, aprender mais rápido e que a faculdade não estava me ajudando muito. Então larguei os estudos e me mudei para os Estados Unidos para aperfeiçoar minhas habilidades na área de impressos, o que acabou virando uma jornada entre diversas empresas de ramos diferentes.

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[Zupi] O que o levou a desenvolver o projeto Brasil Inspired? Ele surgiu neste período de vivência no exterior ou você já pensava em realizar este tipo de trabalho antes de sair pela primeira vez do país?

Na verdade a idéia apareceu quando eu ainda residia no exterior, enquanto eu trabalhava no conteúdo para o livro Brasil-Inspired. Achei que este tipo de espaço era necessário pra cena de design e arte brasileira já que na época não existiam muitos outros sites do tipo, e ainda não existem sites tão focados na nossa cultura e se disponibilizando para estrangeiros.

Acho que umas das minhas principais razões para o projeto https://www.brasilinspired.com foi o fato de que um grande número de estrangeiros que conheci não sabiam muito mais sobre o Brasil além da fama pelo talento no futebol, as bundas do “Carnival” e o gosto do café. O tempo disponível para dedicar ao projeto e a sorte de encontrar alguém como o time da Sapien, que construiu o site, só apareceram neste. Mas como dizem: antes tarde do que nunca. Estamos felizes com o resultado. Agora só precisamos manter as pessoas interessadas no conteúdo.

[Zupi] Você construiu uma carreira sólida no exterior. Por que decidiu voltar à terra natal?

Voltei a morar e trabalhar no Brasil simplesmente porque era interessante pra minha esposa, que é sueca, conhecer e morar em outro país e era também conveniente para mim abrir uma empresa no Rio. Além disso, não tinhamos outros planos, então foi quase que instinto. Depois desta minha última experiência no Brasil eu reconheço como é complicado o mercado local e como a maioria dos profissionais da área está despreparada para ter mais responsabilidade com projetos. Mas serviu também como aprendizado e saber que temos muito potencial no mundo do design e animação, mas acho que isso não é novidade para ninguém!

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[Zupi] Como você avalia o mercado de animação no Brasil? Como o país observa esse tipo de iniciativa?

O nicho específico em que eu trabalhava quando no Brasil era bem diferente do que a maioria dos estúdios de animação do país experienciam diariamente. Nós fazíamos projetos para clientes de fora do país e por isso acabamos não participando do mercado nacional.

Como um observador, eu percebi que a maioria dos estúdios de animação, apesar de terem profissionais de extremo talento em suas equipes, ainda não exibiam a qualidade considerada internacional em seus trabalhos. Acho que isso ainda se deve ao medo dos clientes de experimentarem algo novo e, por conseqüência, os designers também se limitam para conseguirem manter os clientes. Infelizmente este tem sido um ciclo vicioso que aparece em vários outros mercados.

Além disso, temos alguns exemplos isolados de indivíduos e empresas que se destacam imensamente até quando comparados a veteranos do mercado internacional. Acho que ainda não temos incentivo suficiente para estas pessoas e para estudantes em aprendizado. Conferências, palestras, eventos do gênero são raros e muitas vezes os profissionais que participam como exemplo para a platéia são extremamente conservadores e não incentivam técnicas novas. Isso só faz com que o mercado continue estagnado e os que os iniciantes se sintam intimidados e moldados como mais um designer frustrado.

[Zupi] O Brasil tem potencial e estrutura para auxiliar o desenvolvimento de projetos de animação?

Se falamos de Brasil como governo, acho que não. A animação está longe das prioridades de investimentos dos governos e seus patrocinadores porque o mercado é ainda muito pequeno. Se falamos de Brasil como universidades e escolas, acho que também estamos ainda muito atrasados, principalmente porque acho que a teoria e o que ainda é o foco durante a fase de estudo e, na verdade, muito pouco é realmente utilizado mais tarde.

Acho que a parte teórica é importante, mas a verdade é que as partes mais importantes só aprendemos mesmo quando trabalhamos com clientes e projetos reais. As universidades não investem em aulas de computação gráfica como deveriam e o aluno, na maioria das vezes, sai do curso achando que está preparado, mas se depara com muitos problemas nunca antes abordados numa sala de aula.

Já se falamos de talento disponível no país, com certeza podemos nos superar. Só falta mais dinheiro dos clientes para que as empresas se desenvolvam mais, mais respeito dos empregadores por seus funcionários para que não lhes ofereçam salários ridículos e mais coragem de todos os profissionais para criarem projetos que se destaquem quando comparados a qualquer outro cenário mundial.

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[Zupi] Você recebe algum apoio?

Não sei a que tipo de apoio a questão se refere… Em relação a apoio pelo meu trabalho e etc, sim, felizmente tenho tido bastante sorte com isto. A minha esposa também sempre me apóia em todos os meus projetos. Eu realmente não poderia ter tido mais sorte em encontrar alguém como ela. Teria sido impossível ter passado pelos meus últimos três anos de trabalho com outra mulher que não fosse ela para entender as horas extras no escritório. Mas, felizmente, ela tem trabalhado comigo, o que fez com que tudo ficasse mais fácil.

[Zupi] O que serve de inspiração na hora de criar personagens, cenários e histórias?

Durante minha experiência na Nakd, no Rio de Janeiro, sempre estimulei todos os designers e animadores a ajudarem durante a criação para que trabalhássemos como uma equipe. Infelizmente, na maioria das vezes, a equipe de animação não estava interessada em participar deste processo inicial ou estava muito ocupada. Por esta razão, o design dos projetos foram quase todos feitos por mim e minha esposa (https://www.olofsdotter.com).

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[Zupi] Existem artistas e profissionais nos quais você se espelha?

Não necessariamente pessoas nas quais me espelho, mas existem pessoas que me inspiram, muitas delas. Acho que estas influências mudam constantemente, já que depois que absorvo umas, outras se tornam mais importantes. Mas algumas pessoas serão sempre fonte de inspiração.

[Zupi] Como é o seu processo de criação de projetos de animação?

Longo e doloroso. (risos) Mas não necessariamente. É muito interessante porque se o designer tiver tempo, ele pode criar inúmeros detalhes e ser parte de todos as fases do projeto, o que é muito gratificante mais tarde, quando fica pronto e potencialmente aparece na TV ou cinema.

Basicamente, quando recebemos um projeto o normal é ter uma longa fase de design de storyboards e muitas conversas com o cliente. Felizmente tivemos muita sorte na Nakd de não ter que gastar muito tempo nesta fase inicial já que os clientes confiavam no nosso trabalho e nos deixavam trabalhar em paz. Mas tem sido muito legal ter esta troca de informações no início. Às vezes tivemos alguns problemas com clientes que queriam mudar praticamente o projeto inteiro logo no fim da produção. Estes são sempre momentos de pesadelo. Mas sobrevivemos e aprendemos com as experiências.

Acho que todos os designers que têm tempo suficiente para trabalhar num projeto de animação e não tem muitos limites acham uma experiência maravilhosa. É por isso que não vou parar de trabalhar com animação inteiramente, mas sim trabalhar de casa em raros projetos pessoais, porque aí eu poderei fazer o que quiser com o projeto. Acho que vai ser interessante.

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[Zupi] O seu portfólio digital recebeu o nome Hungry for Design. Para você essa é a essência do seu sucesso?

Pra ser sincero, quando pensei neste nome eu estava extremamente apaixonado por design, havia conseguido meu primeiro emprego nos EUA e estava extremamente feliz com a minha escolha de profissão. Acho que esse nome simbolizava exatamente o que estava sentindo. Foi daí que surgiu a idéia de criar um site que desse mais informação a estudantes e designers iniciantes para que tivessem uma base teórica mais forte.

Enfim, era um projeto complexo que nunca tive tempo nem capacidade de fazer sozinho. Mas finalmente estou fazendo agora e vai ficar na URL hungryfordesign.org. Acho que deverá sair no meio do ano que vem. Como não tive como fazer na época quando registrei o .com, então utilizei o site como mau portfólio pessoal.

[Zupi] Qual conselho você daria aos jovens que pretendem ser profissionais de design e animação?

Durmam o quanto puderem agora! Sim, é verdade, motion graphics é uma das áreas mais ingratas em relação ao quanto se trabalha e o quanto tempo livre se tem para fazer outras coisas. Esta foi uma das razões de eu ter fechado o escritório da Nakd no Rio e saído da parceria com meu sócio americano.

Eu estava cansado de não fazer mais nada além de trabalhar e estar grudado ao telefone e etc. Estava me esgotando e eu não estava mais feliz em criar aqueles projetos. Eles significavam somente mais dinheiro e este não era o meu objetivo. Mas muitos se adaptam extremamente bem e amam a profissão. Eu acho que trabalhar com internet ainda é mais prazeroso e provavelmente vou ficar neste nicho por um bom tempo.

[Zupi] Antes de finalizar, é possível revelar algo sobre os seus novos projetos?

Acho que o projeto mais interessante que estou fazendo no momento é o Hugryfordesign.org. Este site será o que sempre quis que o Hungryfordesign fosse. Uma fonte de informação histórica do design gráfico. Como disse antes, ele ainda está sendo feito, então tenho muito trabalho pela frente, mas é um sonho que tenho há muito tempo. Espero que se concretize da maneira que espero.

[Zupi] Algum comentário final?

Obrigado por esta entrevista e a oportunidade de expressar minhas idéias neste site.

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