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Artur Kjá Rangel,
Rio de Janeiro

Confira mais trabalhos aqui.

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[Zupi] O que te levou a trabalhar como artista e designer?

Foi por acaso, mas, como o acaso não existe, eu digo que foi o destino. Já trabalhei com as mais diversas profissões, de auxiliar de mecânico a modelo, mas sabia que em nenhuma delas eu era eu. Quando comprei o meu primeiro computador, a minha diversão era criar posters, zines e anúncios fantasmas, pois nunca tive paciência para ficar jogando games e a minha cabeça não pára de ter idéias.
Uma grande amiga um dia viu os meus “trabalhos”, e me “apresentou” o design. Por perturbação da minha amiga – hoje esposa – eu fui fazer o curso da ESPM de Design Gráfico e automaticamente me identifiquei. Depois deste curso passei a buscar mais conhecimento sobre o design e comecei a cursar um Politécnico. Logo no meu primeiro período eu arranjei o estágio da Tyocoi, e aí não parei mais de trabalhar em prol do design. Já os trabalhos de arte, foram incentivados pelo Rodrigo Valente, da Tyocoi, quando eu ainda era estagiário, apesar de desde pequeno já fazer as capas dos meus cadernos com colagens e utilizar o stencil como protesto. Eu tinha lido uma reportagem sobre a Guerra Santa e aquilo me gerou uma indignação absurda. Como eu estava fazendo um outro trabalho, eu apenas rabisquei a minha revolta no computador. Quando o Rodrigo viu, ele falou para parar o trabalho da agência e continuar aquela ilustração. Aquilo foi uma surpresa e um grande incentivo! Depois de feita, ele ainda fez questão de mandar para a revista. Isso me fez vestir ainda mais a camisa da Tyocoi e me aprimorar nas Artes Digitais.

[Zupi] Conte um pouco sobre os rumos tomados por você na profissão de designer.

Essa história é uma colcha de retalhos! Eu tive a sorte de sempre ver o lado bom das coisas, além de trabalhar com profissionais que incentivaram o meu crescimento intelectual. Quando eu estava no primeiro período da faculdade, fui estagiar numa das melhores agências de pequeno porte do Rio, a Tyocoi. Lá tive o meu primeiro contato com o “conceito”, fator fundamental para o meu estilo de trabalho, pois acho que não adianta fazer arte por arte em um trabalho comercial, tem que ter conceito. Acho que essa é a diferença maior entre um pseudodesigner e um cara que é realmente designer: a busca pelo trabalho bem conceituado, bem fundamentado.
Bem, depois de seis meses, fui contratado como Diretor de Arte e assumi maiores responsabilidades, administrando contas como Citroën, BFGoodrich, Rio Tókio, Derbi Motos, entre outras. Após uns quatro meses fui chamado para integrar a equipe da Tutti Design, lugar onde eu pude visualizar a grandiosidade do design como ferramenta de uma mudança social mais ampla que apenas a visual. Como eles são associados à ADG e possuem uma vasta gama de livros super importantes para a formação de um designer, eu tive a chance de aprender muito sobre o lado social do design. Lá, além de participar de vários projetos interessantes, pude fazer a minha primeira arte digital comercial, que foi utilizada em um stand para a Diagnósticos da América.
Bom, depois de mais uns seis meses, fui novamente chamado para a Tyocoi, mas desta vez para cobrir as férias do Diretor de Criação. Foi uma experiência maravilhosa, pois pude me testar como um administrador de pessoas, coisa que não ensinam na faculdade. Passada essa experiência, aprimorei as minhas habilidades técnicas em agências que foram fundamentais para a criação da Guerrilha Design.
Após essa fase, eu tive uma breve passagem pela FSB Comunicações, na qual eu ajudei a projetar uma House, a All Branding. Apesar de termos conseguido criar uma House bem conceituada e focada aos seus propósitos, o projeto não foi em frente por outros motivos. Como sempre, tirei algo a mais desta experiência, que foi provar para mim mesmo que sou capaz de fazer grandes e lucrativos projetos, mantendo a minha integridade moral e sem deplorar o meu trabalho criativo.

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[Zupi] Porque você decidiu abrir o seu próprio estúdio? E como você prospecta seus clientes?

A Guerrilha Design nasceu da necessidade de destruir o comodismo visual e a falta de ousadia que a maioria das agências tem. Existem agências aonde se cultiva o “lado negro” do design, que eu chamo de agências monetárias, aquelas que não se importam nem com os funcionários, nem com a qualidade do trabalho produzido, só visam os lucros. Isso me mata. Idéias recicladas, layouts chupados e conceitos inexistentes são os mantras dessas agências.

Sentir essa postura na pele me obrigou a seguir as minhas convicções de nunca desrespeitar um profissional, seja ele o faxineiro ou o presidente, nunca subjugar a capacidade criativa do meu cliente achando que “ele não vai entender” e, principalmente, nunca vou deixar de tentar fazer o melhor. Essa é a força que gerou a Guerrilha Design.

Sobre a prospecção, eu tenho algumas empresas de comunicação que são minhas parceiras, como a E4W, a UpLine e a Tempero Comunicação, que me direcionam seus pedidos de design, além de trabalhar com excelentes profissionais de atendimento freelances.

Uma outra forma que também gera contatos é a participação em diversos sites, nacionais e internacionais, com artes e textos. Lugares como Urban Collective, Base V, CCRJ, Media Inspiration, Zupi, entre outros, divulgam e ainda servem como exercício criativo.

[Zupi] Você tem uma equipe que trabalha para você?

Fixa não, mas tem uma galera que está sempre comigo. Trabalhamos por projetos e, dependendo do perfil do trabalho, nós nos reunimos e dividimos as tarefas. Assim eu não tenho custos fixos elevados. O único que está sempre comigo é o meu amigo e redator Marlos Lopes. Como eu tenho as idéias brutas, a sua participação é fundamental para que os meus trabalhos saiam como eu realmente imaginei: redondos.

[Zupi] Qual atrativo principal você apontaria em seu trabalhos?

Nos trabalhos comerciais com certeza é o conceito, já nos artísticos acho que é a revolta. Não consigo ser indiferente em relação ao mundo que vivemos e acredito que as minhas artes possam gerar um incômodo e fazer as pessoas prestarem mais atenção na vida à sua volta, fora a diversão de chocar as pessoas.

[Zupi] Novos projetos em vista?

Como a necessidade é a mãe da criação, este ano eu tenho muitos projetos que quero iniciar. O principal é organizar e desenvolver a união de profissionais de diversas áreas da criação e fazermos uma grande troca de informações, e com isso criar trabalhos bem diferentes do que nós fazemos no dia-a-dia.

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[Zupi] Você mencionou a importância do conceito no design. Você segue tendências visuais? Onde você procura e pesquisa suas referências?
Infelizmente acho que a tendência visual está cada vez mais voltada para uma padronização global do que pro resgate da nossa cultura, coisa que deveria acontecer. Para os meus trabalhos, eu tento pesquisar o máximo possível dentro do contexto da peça, seja na Internet, na rua ou na biblioteca, e depois busco fazer algo que eu não tenha visto, mas que passe o conceito. Sempre é muito difícil chegar a um resultado único e original, mas se eu não tentar, nunca vou conseguir, certo?

Para abastecer mais o meu cérebro de Brasil e, de repente, assim conseguir achar a minha identidade, este ano eu estou me obrigando a ler livros da nossa Literatura. Vou começar por Macunaíma.

[Zupi] O que te inspira?

Tudo. Parece ridículo dizer isso, mas é verdade. Se eu vejo um filme ou escuto uma música que me deixa ligado, faço uma arte ou produzo um cartaz com aquele sentimento que foi desperto. Quem me conhece sabe que eu realmente não paro. Estou até fazendo terapia para desligar um pouco…

[Zupi] Existem artistas e profissionais que servem como impulsão nesta busca por novas idéias?

Vários. Strunck, Brody, Raffic Farah, Ana Luisa Escorel, Carson, Banksy, Eduardo Recife, Dali, todos do movimento Fluxus, Gentileza… Enfim, cada artista, conhecido ou desconhecido, tem a sua importância para o meu desenvolvimento como um todo.

[Zupi] Misturando tudo isso, como você define o seu estilo?

Acho que ele é uma conseqüência do Sk8, do hardcore e do caos carioca. Mas também o mix de profissões que eu tive serviram para tornar a minha visão mais periférica que a normal.

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[Zupi] Você acha que o design brasileiro em si tem um estilo próprio?

O brasileiro tem um estilo único, o nosso design não. Acho que o que realmente falta é olharmos mais para o nosso próprio umbigo. Neste último seminário sobre a Identidade do Design da Brasil Telecom, o diretor da EDRA, Massimo Morozzi, falou uma coisa que para mim é o X da questão: não procure a identidade do design, procure a sua.

[Zupi] E para alcançar esse X da questão é necessário estudo?

Imprescindível! Sem o estudo de História da Arte, Psicologia, Gestalt, Cor, Mkt, entre tantas outras disciplinas fundamentais para o design e para criação, não vai adiantar nada você saber mexer no Photoshop 8, Flash Mx ou no mais novo programa. No máximo você vai ser um excelente operador, mas designer não. Se você acha que tem talento e realmente quer ser um designer, mãos à obra! Vá a bibliotecas, pesquise na Internet, procure os profissionais que você admira e peça indicações de livros, participe de palestras, enfim, deixe de comprar supérfluos e invista em você.

[Zupi] Algum comentário final?

Levante daí e comece agora a sua revolução! Leia Tom Peters, Monteiro Lobato, Scott Bedbury, Gilberto Strunck. Escute Rage Against the Machine, Elis Regina, Ramones, Chico Science. Veja Snatch, Clube da Luta, O Ataque dos Tomates Assassinos. Sinta o perfume das flores, das ruas, do seu estádio de futebol. Viva a vida. Agora apague tudo e seja você mesmo. O design agradece.

 

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